Mistério

O falso tigre que espalhou o terror no sul da Austrália no século XIX

Na década de 1890, a morte de várias ovelhas e o aparecimento de pegadas de grandes dimensões junto às fazendas gerou o pânico nas populações. O mistério do “Tigre de Tantanoola”, como ficou conhecido, só foi resolvido em 1910
Bichos
O tigre de Tantanoola
O tigre de Tantanoola
Cadáver taxidermizado do alegado Tigre de Tantanoola pode ser visto num hotel local (foto: captura de écran/Youtube)

No final do século XIX, um misterioso animal espalhou o terror por algumas cidades do sul da Austrália. O primeiro contacto com a estranha criatura foi feito por pastores aborígenes que trabalhavam numa fazenda a cerca de 30 quilómetros da cidade de Mount Gambier. Numa noite de Novembro de 1891, regressaram assustados depois de terem encontrado um animal selvagem nunca visto no país, e que assustaram também os cães que os acompanhavam.

 

Na altura, recorda o jornal Daily Telegraph, o patrão, John Cameron, não encontrou nada de estranho nas redondezas. Contudo, na noite seguinte, os pastores voltaram a cruzar-se com a criatura e a dar o alerta. Dessa vez, o fazendeiro identificou pegadas semelhantes às de cães, mas muito maiores, com cerca de 10 centímetros de diâmetro. Mas não avistou o misterioso animal.

 

Nove meses mais tarde, na localidade de German Greek, o responsável de uma outra quinta, John Livingston, foi avisado por um aborígene de que um estranho animal andava a rodear a propriedade. Mas também nada viu.

 

Em Dezembro de 1892, a besta é avistada na cidade de Tantanoola por Walter Taylor e a mulher quando regressavam de casa de carro. Segundo os seus relatos, descreve o Daily Telegraph, tratava-se de um animal com o pêlo de cor castanha, listado, com cerca de 65 centímetros de altura e 91 centímetros de comprimento. A cauda tinha cerca de 1,5 metros de comprimento. O animal, que Walter Taylor garantiu não ser um dingo, escondeu-se num bosque denso conhecido como Nitschke’s Ti-Tree.

 

Quando a notícia foi conhecida, vários agricultores queixaram-se de que várias das suas ovelhas apareceram mortas, com sinais de terem sido devoradas. No local, foram encontrados só os ossos e as peles. Numa quinta, foi encontrado um novilho com parte da carne do dorso arrancada.

 

 

Caça à besta

A estranha criatura foi de imediato apelidada de Tigre de Tantanoola pela imprensa australiana. Os moradores das cidades onde o animal tinha sido avistado receavam que aquele começasse a devorar também os humanos. Constituíram-se grupos para lhe dar caça, e foi anunciada uma recompensa a quem o capturasse.

 

Em Maio de 1893, uma dúzia de homens tentou apanhar o animal nas redondezas na propriedade de John Livingston, mas falharam. Enquanto isso, os rebanhos continuavam a ser dizimados. Quatro meses mais tarde, William Johns acordou por volta das duas da manhã com o barulho anormal dos seus cães e galinhas. Ao sair de casa para perceber o que se passava, encontrou pegadas com cerca de 11 centímetros de diâmetro.

 

No dia seguinte, a Polícia recolheu uma amostra da pegada, que enviou para o Jardim Zoológico de Adelaide. Um zoólogo comparou-a com as pegadas de um tigre e de um cão de raça são bernardo, e concluiu que o estranho animal devia ser um canídeo e não um felino.

 

O mistério parecia ter ficado resolvido em Outubro, quando um fazendeiro da cidade de Millicent matou, com recurso a veneno, um porco selvagem de tamanho anormal que, segundo ele, lhe tinha matado 200 ovelhas em apenas um ano. De acordo com Kenny Mathison, o animal escondia-se durante o dia e atacava o gado à noite.

 

Segundo contou depois, para conseguir apanhar o javali, misturou farinha com açúcar e fósforo e derramou a pasta por cima de uma ovelha morta. O porco selvagem media cerca de 2,7 metros da ponta do focinho ao final da cauda, e tinha presas afiadas com cerca de 22 centímetros.

 

Kenny Mathison enviou as presas ao jornal Express & Telegraph juntamente com uma carta na qual descrevia como tinha conseguido matar aquele que era conhecido pelo Tigre de Tantanoola. Só que aquele animal não era o Tigre de Tantanoola.

 

 

 

Mistério resolvido?

Os rebanhos continuaram a ser atacados e junto deles estavam pegadas de grandes dimensões. Em Agosto de 1894, o sobrinho do proprietário da quinta de German Creek percebeu que o rebanho estava a ser atacado, quando passeava junto do lago Bonney. Ao aproximar-se, Donald Smith, de 17 anos de idade, viu um animal estranho, de grande porte, a afastar-se com uma ovelha entre os dentes.

 

O jovem acreditou tratar-se de um tigre, apesar de nunca ter visto um. O animal tinha cerca de 75 centímetros de altura e 1,3 metros de comprimento, pêlo castanho-claro e listado, sobretudo na cabeça e no focinho.

 

Assustado, Donald Smith avisou o tio, que o enviou à Polícia, para pedir ajuda. Foram destacados dois agentes montados a cavalo e um aborígene, que bateram a zona durante um dia. Encontraram pegadas de grandes dimensões, tufos de lã ensanguentada em fetos, mas não o animal.

 

Em 1895, o Tigre de Tantanoola continuou a ser avistado regularmente. Vários grupos de homens lançaram-lhe novamente caça. A estranha criatura seria morta a tiro por Thomas Donovan, quando atacava um rebanho. Ainda percorreu cerca de 180 metros ferida, mas acabou por não resistir. Donovan e o colega, William Taylor, concluíram que a criatura não era um tigre, assemelhando-se mais a um cão.

 

Entregaram o cadáver a um taxidermista local, que com a ajuda de colegas que tinham estudado na Alemanha, tentou perceber que animal seria. Tinha 91 centímetros de altura e 1,5 metros de comprimento, da ponta do focinho à da cauda. A cabeça assemelhava-se à de um lobo e os dentes tinham quase 2,5 centímetros de comprimento. O pêlo era castanho-escuro no dorso e na cauda, cinzento na cabeça, na barriga e nos flancos e amarelado nas patas.

 

Thomas Donovan recebeu várias propostas para vender o cadáver, mas optou por ficar com ele. Cobrou um xelim a cada pessoa que o quis ver. Mais tarde, exibiu-o na sua cidade natal, Nelson, e depois, levou-o para o zoo de Adelaide.

 

 

O monstro revela-se

Apesar do cadáver do animal ter sido exibido, ainda havia quem não acreditasse ser aquele que andava a atacar os rebanhos. No entanto, nos anos que se seguiram, o Tigre de Tantanoola acabou por cair no esquecimento. Até que em Dezembro de 1910, três caçadores locais sentiram um cheiro muito forte a cadáveres junto ao lago Bonney.

 

Um dos homens foi investigar, e o que encontrou deixou-o horrorizado. No meio das árvores, estavam várias ovelhas e cordeiros recém-abatidos e carcaças em decomposição. Todos tinham a marca da quinta do fazendeiro para quem trabalhavam. A Polícia tentou manter o caso em segredo, mas a macabra descoberta rapidamente se espalhou, e o local tornou-se um ponto de atracção turística.

 

A investigação concluiu que o famoso Tigre de Tantanoola eram, afinal, Robert Charles Edmondson e James Bald. Os dois foram acusados de terem furtado, matado e esfolado dezenas de ovelhas. Edmondson confessou em tribunal que em 1899 tinha já sido condenado a 12 meses de prisão pelo mesmo crime el Horsham, Victoria. Desta vez, recebeu uma pena de seis anos de trabalho forçado, mas foi libertado na véspera do Natal de 1914.

 

Apesar de desfeito o mistério, ao longo do século XX, várias pessoas garantiram ter avistado um estranho animal, que alguns juraram ser um tigre da Tasmânia. Mas, até hoje, não há provas de que seja, de facto.

 

Quanto ao animal morto por Thomas Donovan, em 1895, foi taxidermizado e pode ser visto no Tantanoola Tiger Hotel.