O burnout dos treinadores de cães (Parte II)

Roberto Barata
Roberto Barata e Eneida Cardoso reflectem sobre o burnout nos treinadores de cães

Roberto Barata e Eneida Cardoso reflectem sobre o burnout nos treinadores de cães

Em termos da situação actual no nosso país em relação à profissão de treinador e à não regulamentação da mesma, para o profissional responsável e ético, isto causa um desconforto enorme, assim como uma sensação de desamparo constante. Ter um emprego sobre o qual não existe um código de ética, direitos e deveres sobre uma classe profissional cria uma espécie de, e passamos a expressão, “república das bananas”, onde cada um faz o que bem entende, inclusivamente colocando pessoas e animais em risco, por não possuir, de todo, as competências necessárias.

 

Temos por um lado os treinadores, popularmente conhecidos como “velha guarda”, que alegam anos de serviço como certificação de que são profissionais competentes, mas que não existe uma actualização dos conhecimentos em relação à realidade social do ensino canino. Salientamos que não é desprestígio nenhum. É uma questão de evolução no sentido prático da palavra, que significa mudança. Como mencionado na parte 1 deste artigo, a realidade de treinar cães para efeitos operacionais ou de desporto é diferente do ensino social de cães de companhia, tendo em consideração algumas estatísticas apresentadas sobre a realidade dos detentores e dos seus cães, e, ao generalizar metodologias de diferentes áreas, poderão criar situações de risco, a partir do princípio que todas as situações devem ser analisadas individualmente e devidamente adaptadas – para as quais não existem responsáveis.

 

Por outro lado, temos o jovem adulto que decide ser treinador de cães momentaneamente fazendo uma formação de fim-de-semana ou de meia dúzia de horas e auto-intitulando-se a partir desse momento como treinador ou até “perito e especialista”, onde o uso da retórica populista sem teor científico, já usada inclusive por vários profissionais com longos anos e experiência, dificilmente consegue criar uma distinção entre ambos.

 

Numa outra terceira facção, temos aqueles que mesmo sem a possibilidade de certificação, se dedicam a fazer formação com frequência e a actualizarem os seus conhecimentos diariamente, procurando fontes científicas além fronteiras e aliando a isto algo crucial – a prática. Todos estes pontos são desafiadores num país que ainda valoriza títulos, aparências nos media, comoção social e o carisma, acima da racionalidade, da competência prática e do knowhow.

 

Esta terceira facção, além de questionar a realidade, procura bases sólidas que suportem a sua prática e lhes permita uma compreensão cada vez mais abrangente da situação concreta com que se deparam e levam a cabo um esforço árduo para fazerem um trabalho sério e íntegro – estes últimos são, claramente, os que estão mais susceptíveis ao burnout ou desgaste emocional advindo desta profissão. Na verdade, trabalhar como treinador de cães, nestes moldes, tem imensas semelhanças com profissões ligadas a áreas sociais e de saúde, quer ao nível das exigências individuais, quer ao nível da responsabilidade sobre a população com quem se trabalha – diria até que tem muitos pontos em comum com intervenções sistémicas (terapia familiar, área comunitária, etc) .

 

Sobre o burnout

O burnout pode ser definido como um estado persistente e negativo, encontrado em pessoas “normais” e que não sofrem de nenhuma psicopatologia, o qual se caracteriza pela dispersão, pela falta de motivação e pelo desenvolvimento de atitudes e comportamentos disfuncionais no trabalho. A condição psicológica desenvolve-se gradualmente, mas permanece despercebida por algum tempo, resultando em uma dificuldade em separar as intenções e a realidade no trabalho. Encontram-se fortes correlações entre:  burnout e stress no trabalho; burnout e depressão e burnout e fadiga crónica

 

Factores identificados como precipitantes de desgaste emocional ou burnout em treinadores de cães:

Frustração advinda dos limites dos resultados com as famílias / detentores;

Incapacidade em fazer uma separação clara entre o lado profissional e pessoal;

Extrema ligação emocional aos casos – incapacidade em manter a imparcialidade / objectividade;

Revolta / desamparo dentro da comunidade de Treino Canino – ambiente predominantemente de competitividade e não de cooperação e interdisciplinaridade (que qualquer área de intervenção humana, relacional ou social exige);

Expectativas irrealistas do profissional relativamente ao que é efetivamente ser Treinador de cães;

Ausência da regulamentação da actividade de treinador de cães;

Inexistência de um código de ética da actividade;

A aplicação da legislação ser ineficiente, assim como a existência dos devidos recursos e respostas locais na causa animal (maus-tratos ou negligência, abandono, crenças culturais enraizadas);

Problemas de comportamento dos cães que muitas vezes vêm associados ou estão interligados com perturbações do foro psicológico dos detentores, assim como dificuldades relacionais no seio da família.

 

Como um efeito bola de neve, estes e outros factores criam sentimentos de revolta, de desamparo dentro da comunidade do treino canino que criam esses quadros de depressões, esgotamentos e burnout, que estão a fazer com que muitos colegas (e amigos) estejam a desistir da actividade, a afastarem-se progressivamente ou a fazer da mesma uma segunda opção.

 

Na nossa opinião, uma regulamentação da actividade é imperativo assim como uma triagem a todos os que exercem a actividade actualmente. É necessário um estudo e discussão profunda entre profissionais de várias áreas, porque o relacionamento interpessoal na actividade do treino de animais de companhia engloba uma intrusão tanto familiar como à própria mentalidade social, e é necessário formar-se, capacitar-se e preparar profissionais para esta realidade que vai muito além do ensino social canino.

 

Existem extensos tópicos que deveriam ser tomados em consideração. Desde os requisitos prévios para as formações, um conteúdo programático realista que siga uma componente pessoal, técnica e individual, até à necessidade deste assunto ser discutido com entidades internacionais e de não cingir-se apenas às limitações nacionais sobre a temática.

 

Para todos os profissionais que estejam no silêncio com estes problemas, deixamos uma mensagem de quem, como vocês, trabalha diariamente de forma profissional nesta área: vocês não estão sozinhos. Todos nós somos essenciais e temos vários pontos em comum dentro de possíveis discordâncias em alguns assuntos. São esses pontos em comum que devem ser explorados e redirecionar-nos para quem realmente trabalhamos. Nós precisamos de vocês e, acima de tudo, eles precisam de nós.

 

Demonstramos assim a nossa preocupação sobre este assunto ainda não muito falado, mas que é real e que necessita urgentemente de ser discutida publicamente e tomarem-se acções práticas entre todos os que, de forma profissional, actuam na área.

 

A Parte I deste artigo pode ser lida aqui

Roberto Barata é formado em etologia aplicada e antrozoologia. É tutor no Ethology Institute e faz serviço independente de assessoria científica e instrução. Encontra-se na Dinamarca a efectuar pesquisas e estudos nas suas áreas de formação e coopera com o etologi.dk na realização de formações personalizadas a profissionais da área animal, a detentores de animais de companhia e na modificação comportamental de cães, gatos e cavalos, maioritariamente. Escreve no terceiro sábado de cada mês e pode ser contactado através desta ligação: https://rbarata.com

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