O burnout dos treinadores de cães (Parte I)

Roberto Barata
Roberto Barata e Eneida Cardoso reflectem sobre o burnout nos treinadores de cães

Roberto Barata e Eneida Cardoso reflectem sobre o burnout nos treinadores de cães

Este artigo de duas partes foi escrito em sinergia com Eneida Cardoso, psicóloga clínica e treinadora de cães na Conectacão. Muito obrigado, Eneida, por este apoio técnico.

 

O treino de cães nos últimos oito anos teve um crescimento significativo a nível social. Este boom pode ser estudado em diferentes perspectivas, onde eu destaco a necessidade social primária e a complementar. A necessidade primária resulta da necessidade das próprias famílias em entenderem os seus cães e procurarem por um auxílio mais interventivo; e a complementar, resulta da necessidade que a própria indústria pet (também em crescente expansão) criou na sociedade para a compra de produtos (a maioria desnecessária) e onde os treinadores são personagens complementares para a funcionalidade dos mesmos.

 

Porém, este boom está condenado desde o início a partir do momento em que não existe qualquer regulamentação da actividade. Na realidade actual, para se ser treinador basta um indivíduo apenas intitular-se como tal sem conhecimento ou formação na área. Por vezes, a “formação” é feita pelo conhecimento empírico, por ler um livro, ver um DVD, participar num seminário ou noutro evento de curta duração, ou indivíduos de outras áreas que se firmam no ensino canino.

 

Nos meus trabalhos na área da antrozoologia aplicada à modificação comportamental dos animais de companhia defini estes padrões como “fashionism técnico”, um extenso trabalho de pesquisa que eu apresento nas minhas formações a profissionais, e que posso descrever resumidamente como um padrão de acções e termos dentro da área de treino animal que seguem as tendências sociais e económicas do momento, podendo ser permanentes, temporárias ou adaptativas.

 

Esta falta de regulamentação cria, na realidade social actual, um descontrolo nas ofertas de serviços e formações, algumas delas com o uso erróneo da palavra ciência e de títulos académicos, a nova tendência, mas que não têm nenhum académico com formação na área a ministrá-las ou o devido reconhecimento. Um efeito bolha está a criar-se com consequências catastróficas, sem um mínimo de questionamento social, que está condicionado a uma realidade virtual de cores, apelo aos sentimentos e do politicamente correcto.

 

Num artigo escrito em Maio do ano passado, salientei com alguns factos como o ensino social dos cães difere de alguns modelos ainda em vigor, entre outras características mencionadas neste artigo de Outubro do ano passado, que destroem e desprestigiam esta actividade tão essencial na sociedade actual.

 

Contudo, o problema consegue ir ainda mais além. Do contacto directo que mantenho a nível profissional com vários treinadores e estudantes das variadas áreas da componente animal, registo um aumento de um padrão de queixas relativamente à actividade que exercem, principalmente na área de treino canino. A principal é o relacionamento com os detentores de cães. Dentro deste tópico, saliento o facto desses treinadores não terem tido um acompanhamento prático durante e, principalmente, após as formações, sentindo-se inseguros e não preparados para quando as mesmas aparecem, inclusive situações que ultrapassam a competência do treinador, mas que o mesmo não foi instruído dos limites das suas competências.

 

Estou atento a este assunto e empenhado na criação de soluções dentro das minhas competências desde os últimos cinco anos. Como resultado, desenvolvi ferramentas empíricas e adaptei matérias de outras de áreas profissionais das quais tive formação, de forma a dar um apoio mais directo a esta realidade, a treinadores, estudantes da área animal e como complemento a profissionais de outras áreas com quem trabalhamos em conjunto e que necessitam de estar cientes desta realidade (psicólogos e veterinários maioritariamente). É minha convicção de que a formação de profissionais deve abranger várias áreas das ciências sociais e naturais, não estando restrito somente às actuais técnicas padrão de treino.

 

No entanto, também é importante a sinergia com outros profissionais para a criação de mais soluções.

 

Em contacto com a psicóloga clínica e treinadora de cães Eneida Cardoso, que também estuda e investiga esta situação há algum tempo, decidimos escrever este artigo com as nossas pesquisas, conhecimento técnico e, mais do que expôr a nossa preocupação, alertar para este problema sintomático, que necessita de uma acção rápida. Abaixo (e na próxima parte), o artigo foi escrito em conjunto.

 

As competências relacionais surgem nestes momentos, como uma importante componente técnica que falha muitas vezes na maioria dos profissionais que trabalham com cães. A exigência da profissão em si vai muito mais além do comportamento animal – as relações humanas, a assertividade, uma boa capacidade de comunicação verbal (sem tecnicismos e “extrema cientificidade”) e a capacidade de empatizar com as pessoas são ferramentas cruciais nesta área, que muitas vezes não existem nestes profissionais. Paralelamente a isso, temos também a própria dificuldade e/ou incapacidade do profissional em lidar com a frustração, quer causada pela relação com os detentores dos cães, quer mesmo com os resultados alcançados. Mesmo em profissionais extremamente competentes, estas dificuldades surgem, a diferença é que o nível de consciência das mesmas é valorizado, levando muitas vezes ao fenómeno de burnout – muito característico das áreas sociais e de saúde.

 

O não possuir estas aptidões sociais e profissionais (e mesmo quem as possui), tem os seus efeitos na prática diária, mas também, na própria estabilidade emocional do treinador. E, aliadas a estas características relacionais, surgem as próprias idiossincrasias de cada pessoa, a sua própria estrutura mental, personalidade, etc.

 

A verdade é que a profissão de treinador é muito mais exigente do que à primeira vista parece; não é só trabalhar com os cães/animais. Diria até que a parte humana tem um peso muito maior do que a parte animal. Temos de ter consciência que se não se conseguir chegar às pessoas que nos procuram, nunca conseguiremos ajudar aquele cão que veio com elas – porque queiramos ou não, são essas pessoas que possuem em primeira instância todo o poder para operar no sentido da mudança.

 

As expectativas são também outro aspecto muito importante – quer as expectativas do (aspirante a) treinador, quer as expectativas dos detentores de cães. Começando pelas primeiras – estas falham logo no início, quando há a expectativa de ser treinador de cães e a própria visão pessoal que cada um tem da mesma. Parece haver uma tendência generalizada por parte de muitas pessoas quando ao decidirem por esta área só se lembrarem de uma parte da equação – os cães – as pessoas são desvalorizadas ou até mesmo esquecidas.

 

As expectativas dos detentores são autênticos desafios. E possuir a capacidade de desconstruí-las e transformá-las em possibilidades realistas é o mais difícil. Para o conseguir, o treinador tem de ter a capacidade de as compreender, e delinear em conjunto objectivos claros e que sejam possíveis de alcançar – para aquele cão e para aquela família.

 

Outra característica que parece dificultar ou facilitar, caso se possua, é a capacidade de adaptação e flexibilidade e até de algum improviso; todas as pessoas são diferentes e aliando esta diferença às distintas formas como analisam e interpretam as situações, às características daquele cão e a forma como se relacionam, irá ditar ou delinear um caminho a seguir. Ou seja, cada pessoa, família e cão que procura um treinador é diferente, logo a forma de actuar, terá de ser adaptada a quem se tem à frente – e com isto os métodos, a linguagem, terão de ser adaptados para que se consiga passar uma mensagem. E depois, quando se trabalha com vários elementos daquela mesma família o desafio torna-se complexo – porque a chave é que todos, dentro da sua individualidade consigam ser suficientemente coerentes e consistentes para não confundir o cão.

 

Nota: A segunda parte deste artigo pode ser lida no excepcionalmente no próximo sábado.

Roberto Barata é formado em etologia aplicada e antrozoologia. É tutor no Ethology Institute e faz serviço independente de assessoria científica e instrução. Encontra-se na Dinamarca a efectuar pesquisas e estudos nas suas áreas de formação e coopera com o etologi.dk na realização de formações personalizadas a profissionais da área animal, a detentores de animais de companhia e na modificação comportamental de cães, gatos e cavalos, maioritariamente. Escreve no terceiro sábado de cada mês e pode ser contactado através desta ligação: https://rbarata.com