O que é um cão (parte II)

Luís Vicente
O cão descende do lobo cinzento domesticado

O cão descende do lobo cinzento domesticado

Foi este o último parágrafo do meu texto anterior, apenas para recordar e nos situarmos:

«O seu nome científico é Canis lupus familiaris. O lobo é Canis lupus e, portanto, o cão é uma variedade de lobo. Por último pertencem a uma super-espécie da família canidae. Uma super-espécie é um conjunto de espécies («espécie» significa uma entidade isolada reprodutivamente de outras evolutivamente próximas) potencialmente compatíveis do ponto de vista genético, portanto potencialmente cruzáveis e que só não se cruzam por isolamento geográfico. O cão partilha este “espaço genético” pelo menos com o chacal, o lobo etíope, o coiote e o dingo».

 

Para tentar compreender o que é um cão terei que entrar por terrenos científicos ainda muito pantanosos, sobre os quais há mais conjecturas que conhecimento de base empírica. Utilizarei termos com os quais os não-biólogos não estão familiarizados, mas tentarei ser tão claro quanto possível.

 

Muitos dos termos «obscuros» que utilizo aqui poderão facilmente, para quem esteja interessado em saber mais, ser esclarecidos através de procura na Internet.

 

Proponho assim uma aventura na fronteira entre o conhecimento e a conjectura mas, de qualquer forma, conjectura cientificamente alicerçada.

 

De qualquer forma, hoje ainda não haverá espaço para entrar nas profundezas do desconhecido, ou seja, dos mecanismos evolutivos através dos quais o lobo se fez cão.

 

Num livro cuja edição original alemã é de 1949 (1954 na sua primeira tradução inglesa), Konrad Lorenz, Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1973 pelos seus estudos sobre comportamento animal, apresenta evidências etológicas robustas que permitem antever uma ligação mais íntima entre o cão e o chacal que entre o cão e o lobo. A ideia de o cão estar evolutivamente mais próximo do chacal do que do lobo é, no entanto, claramente rebatida pelos dados da biologia molecular. Estes apontam, sem grande margem para dúvidas, para que o cão resulte da domesticação do lobo cinzento da Ásia Oriental.

 

Então, onde ficamos? Comecemos pela versão sugerida pelos estudos genéticos.

 

Refiro que, curiosamente, não é caso único. Outros exemplos existem que mostram que comportamental e/ou fisiologicamente, certas espécies aparentam ser mais próximas de outras do que, depois, os dados provenientes dos estudos genéticos sugerem. Talvez um dia fale deles aqui.

 

A história do cão doméstico parece ter começado há pelo menos 15 000 anos, mas pode ser mais antiga, possivelmente com mais de 100 000 anos, a partir do lobo cinzento na Ásia Oriental, talvez em resultados de diferentes eventos de domesticação. Esta interpretação é sugerida pelos dados da estrutura haplotípica.

 

Talvez esta seja a primeira expressão obscura. Para esclarecimento, um «bloco haplotípico» é uma região do cromossoma onde há vários genes, mas não há recombinação, ou seja, troca de genes na meiose. Um bloco haplotípico é herdado inalterado por muitas gerações até que ocorra uma mutação.

 

Os cães terão evoluído graças a um relacionamento mutuamente benéfico com os humanos, partilhando os seus habitats e alimentos. Nos últimos séculos, os humanos terão seleccionado os cães melhores pastores, melhores caçadores e mais obedientes. Neste processo criaram animais aptos a apoiar as suas necessidades. Estas experiências evolutivas terão produzido uma maior variabilidade morfológica do que a que se observa no resto da família Canidae.

 

A família Canidae inclui 34 espécies aparentadas que divergiram durante os últimos 10 milhões de anos. Os trabalhos de genética sugerem que o lobo cinzento e o cão são os mais estreitamente relacionados, seguidos por uma estreita ligação com o coiote, os chacais e o lobo etíope, três espécies que se podem cruzar com cães na natureza.

 

Portanto toda a evidência genética sugere que o cão deva ser um lobo cinzento domesticado.

 

A Parte I deste artigo pode ser lida aqui.

 

Luís Vicente é investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. É biólogo, doutorado em Evolução e professor de Comportamento Animal e de Neurobiologia. Escreve no segundo sábado de cada mês.

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.