Efeméride

Égua do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA fez história na Guerra da Coreia

Reckless foi comprada pelo tenente Eric Pederson para transportar munições através dos campos de batalha. Muitas vezes, fazia-o sozinha
Fátima Mariano
Reckless, a égua do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, morreu em 1968
A égua Reckless, do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, morreu em 1968
Reckless com o sargento Joseph Latham, o seu tratador durante a Guerra da Coreia (foto: United States Marine Corps)

Durante a Guerra da Coreia (1950-1953), uma pequena égua acastanhada do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA destacou-se pela sua valentia. De tal forma que ainda hoje é considerada um dos 100 heróis americanos de todos os tempos. Como reconhecimento pelos seus feitos no campo de batalha, Reckless foi promovida ao posto de sargento e condecorada várias vezes após o fim do conflito.

 

Reckless foi comprada em Outubro de 1952 pelo tenente Eric Pedersen a uma jovem coreana. Kim Huk Moon precisava de dinheiro para comprar uma prótese para a irmã, que tinha perdido uma perna depois de ter pisado uma mina terrestre. A égua chamava-se então Ah Chim Hai (que em coreano significa Chama da Manhã), teria quatro anos de idade, media 1,42 centímetros de altura e pesava cerca de 400 quilos.

 

De acordo com o tenente-coronel Andrew Geer em declarações ao jornal The Coast News, Eric Pedersen pretendia aumentar o poder de fogo do seu pelotão. Para isso, precisava de um animal que conseguisse transportar as munições de 75 mm pelas colinas coreanas. Reckless fê-lo sem qualquer hesitação, incluindo durante a Batalha de Outpost Vegas, que opôs os EUA à China entre os dias 26 e 28 de Março de 1953. Segundo os registos, num único dia tê-lo-á feito 51 vezes, frequentemente debaixo de fogo.

 

Na volta, transportava fuzileiros feridos. A égua era de tal forma inteligente, que ao fim de poucas viagens, já fazia os transportes sozinha. Foi o primeiro animal dos Fuzileiros Navais americanos a viajar num hidroavião.

 

Reckless era de tal forma acarinhada que estava autorizada a andar livremente pelo acampamento. Nas noites frias, dormia nas tendas. Era conhecida por comer de tudo, incluindo ovos mexidos, e beber cerveja e cola.

 

Reckless, a égua do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, morreu em 1968.
Num dos dias da Batalha de OutPost Vegas, Reckless transportou munições para a frente de guerra 51 vezes (foto: United States Marine Corps)

Homenagens

Durante a guerra, foi ferida duas vezes. Em 1953, foi-lhe dada a patente de cabo. No ano seguinte, depois do fim do conflito, foi promovida a sargento. «Tive a honra de fazer parte da formação quando Reckless foi promovida a sargento», recordou, ao mesmo jornal, Bob Rogers, um antigo fuzileiro.

 

Terminada a guerra, a égua foi levada para os EUA. O transporte foi feito gratuitamente pela Pacific Transport Line. À chegada a São Francisco, tinha à sua espera vários antigos militares, a imprensa e o governador Goodwin Knight. Foi recebida como uma autêntica heroína.

 

Mais tarde, participou como convidada de honra num jantar de gala de comemoração do aniversário do Corpo de Fuzileiros Navais. Para chegar à sala do banquete, teve que subir os 10 andares do edifício de elevador.

 

Reckless recebeu dois Corações Púrpura (Purple Hearts, no original) (medalhas entregues aos elementos das Forças Armadas feridos ou mortos durante o serviço militar), uma Medalha de Bom Comportamentodo Corpo de Fuzileiros Navais, uma Medalha de Serviço da Defesa Nacional, uma Medalha de Serviço das Nações Unidas, entre outras.

 

Reckless viveu o resto dos seus dias no rancho do tenente Eric Pederson na cidade de Vista, Califórnia. Teve três filhos: Fearless (literalmente, sem medo), Dauntless (literalmente, destemido) e Chesty (em homenagem ao tenente-general Lewis B. “Chesty” Puller). Morreu em 1968.

 

No dia 26 de Julho de 2013, foi inaugurada no Museu Nacional do Corpo de Fuzileiros Navais uma estátua de Reckless a carregar munições da autoria da escultora Jocelyn Russell. O monumento foi inaugurado no 60.º aniversário da Guerra da Coreia e inclui uma mecha do seu rabo. Três anos mais tarde, a 26 de Outubro, foi inaugurado um memorial em Camp Pendleton, da mesma artista.

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