Cavalos: O paradoxo (des)humano

Roberto Barata
cavalos

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No segundo artigo que escrevi para este jornal no ano passado, mencionei alguns estudos que demonstram uma essência equina  essência que é ignorada no meio social. Aconselho a sua leitura antes deste. Neste artigo, vou destacar de forma resumida alguns aspectos referentes ao uso social e desportivo dos cavalos, que acredito serem importantes para uma reflexão necessária sobre se o bem-estar equino é realmente uma prioridade.

 

O antropomorfismo está presente quando o comportamento humano e as habilidades mentais humanas são usadas como um sistema de referência para explicar o carácter de um indivíduo ou de uma espécie não humana. Embora o antropomorfismo crítico possa ser benéfico para um estudo mais profundo da compreensão do comportamento animal, principalmente as questões 1 (função) e 2 (evolução) do biólogo Tinbergen, considero imprudente o seu uso em frases como «Ele gosta» ou «Ele é feliz», entre outros argumentos que apelam aos sentimentos, na sua maioria falaciosos, como justificação para o uso dos cavalos para os mais variados fins na sociedade.

 

A minha prudência nestes argumentos rege-se principalmente pelos conceitos teórico-práticos do bem-estar animal, tendo em consideração as suas necessidades naturais; pela pesquisa de vários estudos científicos; e pelas questões éticas envolvidas.

 

Na componente do bem-estar:

As técnicas modernas em etologia e psicologia experimental permite-nos ter um amplo conhecimento ao nível das análises sensoriais, motoras, dos efeitos das hormonas, da motivação, do comportamento das espécies quando estão em boas ou más condições, entre outros.

 

Este conhecimento criou várias formas de avaliar o bem-estar animal e de aplicá-las nos animais domésticos.

 

O bem-estar animal é tipicamente medido através de parâmetros de saúde, fisiológicos e de comportamento. O comportamento natural é avaliado de acordo com o etograma (lista descritiva dos comportamentos) da espécie.

 

Em Janeiro deste ano, foi publicado um artigo sobre um modelo para a avaliação da dor nos cavalos através de um sistema de vídeo.

 

De salientar que os ambientes artificiais propiciam comportamentos anómalos, desde o espaço per se, como a influência de vários factores no campo sensorial que não são consideradas pelos humanos: iluminação, temperatura, frequências sonoras, eletromagnetismo, substâncias químicas, etc.

 

 

As questões éticas envolvidas:

O meu ponto inicial de discussão, desde que comecei, em 2008, o meu estudo na área da antrozoologia (estudo das relações entre os humanos e não-humanos), sempre foi a tendência em criar-se necessidades através de conteúdo multimédia e vários estudos sobre os benefícios dos animais não humanos para os humanos, mesmo que esses estudos falhem desde o início devido a uma hipótese mal fundamentada. Existe no entanto a coincidência dos mesmos irem de encontro ao mercado económico, às tendências sociais e, numa rápida pesquisa, confirmam-se que existem patrocínios de terceiros envolvidos nas áreas em questão.

 

Esta onda de estudos teve o seu boom há 10 anos e começou com os animais de companhia (maioritariamente, cães), e nos últimos cinco a sete anos, tem existido um crescimento dos benefícios dos cavalos para terapias e outras actividades sociais.

 

Numa área de estudo científico, defendo que deva existir uma imparcialidade e equilíbrio dos mesmos, sejam os resultados abonatórios ou não. As futuras pesquisas deveriam forcar-se não nos benefícios de A para B (ou vice-versa), mas sim nas consequências a curto, médio e longo prazo dessas actividades tanto para A como para B. Esta opinião deve-se à quase inexistência de estudos sobre os efeitos nefastos das actividades sociais e desportivas humanas para com os não humanos, e os poucos existentes apresentarem, na sua maioria, resultados considerados inconclusivos e que carecem de mais pesquisa.

 

E seria neste tópico das consequências para a espécie que deveríamos discutir a necessidade do uso dos animais não humanos para as várias actividades sociais, desportivas e lúdicas, e quais os limites a serem considerados. Realço para a sua reflexão um artigo publicado este mês sobre o uso dos «jiggers» na corrida de cavalos. Noutra vertente desportiva, este estudo de 2016 alerta para as práticas pouco ortodoxas que modificam a locomoção e a postura dos cavalos para práticas desportivas, o que influencia directamente os vários aspectos do bem-estar.

 

Termino com um pedido: Procurem o conhecimento dentro de bibliografia e referências credíveis, desenvolvam um pensamento crítico sobre todos estes assuntos e nunca tenham receio de mudar de opinião se assim considerarem necessário.

 

 

Roberto Barata é formado em etologia aplicada e antrozoologia. É tutor no Ethology Institute, diretor do Portal etologia.pt, faz serviço independente de assessoria científica e instrução. Encontra-se na Dinamarca a efectuar pesquisas e estudos nas suas áreas de formação e coopera com o etologi.dk na realização de formações personalizadas a profissionais da área animal, a detentores de animais de companhia e na modificação comportamental de cães, gatos e cavalos, maioritariamente. Escreve no terceiro sábado de cada mês e pode ser contactado através desta ligação: https://etologia.pt/roberto-barata/