O que é um cão (Parte I)

Luís Vicente
O cão é um animal gregário e carnívoro, que pratica caça activa

O cão é um animal gregário e carnívoro, que pratica caça activa

Apesar de o tema destes meus textos ser o imprinting e a vinculação, sinto a necessidade de fazer aqui uma interrupção nesta série para dedicar uns três ou quatro sábados a esclarecer o que é um cão. Depois voltarei à temática inicial. É que a situação mais confrangedora com que me deparo quando oiço «donos» de cães a conversarem sobre os seus animais, ou quando os vejo com eles na rua, é perceber que a grande maioria deles não sabe o que é um cão, não faz mesmo a mais pequena ideia.

 

Antes de tudo, essas pessoas necessitam de compreender que aquilo que têm em casa é um mamífero gregário, um carnívoro, um predador que pratica caça cooperativa com procura activa e que pertence a uma super-espécie.

 

Os mamíferos constituem uma classe de animais vertebrados que poderemos dividir em dois grupos: aquáticos (cetáceos) e terrestres (quadrúpedes/bípedes).

 

Possuem glândulas mamárias que, nas fêmeas, produzem leite com que alimentam as crias; possuem pêlos (com excepção dos golfinhos e de algumas baleias que apenas os têm na fase embrionária).

 

São animais endotérmicos («animais de sangue quente»), ou seja, que controlam fisiologicamente a temperatura corporal. Por exemplo os répteis são animais ectotérmicos. Controlam a sua temperatura comportamentalmente. Aquecem o corpo sob acção dos raios solares, quando este atinge um óptimo térmico deslocam-se para lugares abrigados e mais frescos, quando atingem temperaturas baixas voltam a expôr-se aos raios solares.

 

Os primeiros indícios fósseis de mamíferos apontam para o Triássico Superior, há pelo menos 208 milhões de anos.

 

Os cães são mamíferos gregários, o que significa que vivem em grupos socialmente sofisticados onde se estabelecem complexas hierarquias de dominância e de vinculação.

 

São carnívoros, ou seja, alimentam-se predominantemente de carne. Pertencem à ordem Carnivora. Sendo «comedores de carne» não necessitam de ingerir grandes quantidades de alimento, dado que a carne é rica em nutrientes. A digestão da carne é rápida e, por isso, o intestino é mais curto do que o de animais com outro tipo de alimentação.

 

São predadores, o que significa «caçadores» e praticam caça cooperativa, ou seja, têm estratégias de caça em grupo com divisão de papéis, o que só é possível com uma organização social sofisticada e uma linguagem especializada. Normalmente, caçam presas maiores do que eles. Possuem mandíbulas fortíssimas, capazes de quebrar ossos muito duros e de rasgar peles extremamente resistentes.

 

Praticam caça de procura activa. Existem predadores que praticam «caça de espera», ou seja, que se abrigam esperando a passagem de uma presa sobre a qual saltam no momento certo, como é o caso de muitos felinos. Os cães, como referimos, são animais de «procura activa». Deslocam-se em grupo em busca de presas servindo-se intensamente do olfacto. Detectam um cheiro, interpretam-no e identificam-no, o que significa uma sofisticada elaboração cognitiva.

 

O seu nome científico é Canis lupus familiaris. O lobo é Canis lupus e, portanto, o cão é uma variedade de lobo. Por último, pertencem a uma super-espécie da família canidae. Uma super-espécie é um conjunto de espécies («espécie» significa uma entidade isolada reprodutivamente de outras evolutivamente próximas) potencialmente compatíveis do ponto de vista genético, portanto poterncialmente cruzáveis e que só não se cruzam por isolamento geográfico. O cão partilha este «espaço genético» pelo menos com o chacal, o lobo etíope, o coiote e o dingo.

 

Luís Vicente é investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. É biólogo, doutorado em Evolução e professor de Comportamento Animal e de Neurobiologia. Escreve no segundo sábado de cada mês.

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