O imprinting e a vinculação (parte VI). Domesticação – o duplo imprinting

Luís Vicente
O processo de domesticação dos cães é importante para a criação de um vínculo

O processo de domesticação dos cães é importante para a criação de um vínculo

John Paul Scott e John Fuller, desenvolveram um programa de investigação em cães realizando uma longa série de trabalhos sobre genética e ontogenia do comportamento.

Scott desenvolveu o conceito de períodos críticos e foi o pai da teoria geral sobre o papel da experiência precoce na organização do comportamento.

Criou a expressão «período crítico de socialização» e introduziu nas ciências do comportamento o termo «sociobiologia».

Foi monumental o que nos deixou sobre a genética e o comportamento do cão. Escolheu criteriosamente cinco raças para os seus estudos: basenji, beagle, cocker spaniel, pastor Shetland e fox-terrier.

Descobriu o período crítico para a vinculação no cão, da mesma forma que Lorenz descobriu o imprinting no ganso.

Foi Scott que identificou os seis períodos do desenvolvimento comportamental do cão e outros mamíferos: neonatal, de transição, de socialização, juvenil, púbere e parental.

O cão (Canis lupus), se não foi o primeiro, terá sido um dos primeiros animais a ser domesticado pelas pessoas. Uma das questões fundamentais que se colocavam aos etólogos era porquê? Porquê, no sentido de porque será possível a domesticação? Ou porque será que uns animais são facilmente domesticáveis e outros não?

Comecemos por tentar uma primeira abordagem ao processo que denominamos «domesticação». Se não ligarmos à sua raiz latina (de domus = casa), poderemos considerar o fenómeno sob uma perspectiva mais geral, como o estabelecimento de um vínculo social entre o animal dito «doméstico» e uma espécie diferente da sua. Este segundo vínculo parece estabelecer-se para além do processo de imprinting que aprofundámos atrás, mas ter algumas características em comum. Parece, por exemplo, ser também um fenómeno supra-individual (fixa características gerais e não individuais).

Interrogando-se sobre os fundamentos biológicos da domesticação, Scott encontrou a resposta num fenómeno que denominou de DUPLO IMPRINTING. Para a sua compreensão, nos próximos capítulos iremos aprofundar um pouco os períodos de desenvolvimento do cão descobertos por Scott.

 

(A Parte V deste artigo pode ser lida aqui).

Luís Vicente é investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. É biólogo, doutorado em Evolução e professor de Comportamento Animal e de Neurobiologia. Escreve no segundo sábado de cada mês.