Comércio

Parlamento discute proibição de medicamento veterinário perigoso para as aves necrófagas

Vários estudos científicos revelam que o diclofenac, usado como anti-inflamatório e analgésico, permanece na carcaça dos animais até sete dias após a sua morte
Fátima Mariano
As aves necrógafas estão protegidas em Portugal
As aves necrógafas estão protegidas em Portugal
O abutre-preto é uma espécie classificada como criticamente em perigo em Portugal (foto: Kanenori/Pixabay)

A Assembleia da República discute esta quinta-feira duas propostas de projecto de lei do PAN – Pessoas Animais Natureza e do Partido Ecologista Os Verdes (PEV) que defendem a proibição do comércio e uso de medicamentos veterinários que contenham diclofenac.

 

Na medicina veterinária, o diclofenac é utilizado sobretudo como anti-inflamatório e analgésico. Estudos científicos têm revelado que esta substância permanece na carcaça em concentrações letais até sete dias após a morte do animal. O que significa que quando as aves necrófagas se alimentam desses cadáveres, estão a ingerir também essa diclofenac.

 

O uso destes medicamentos quase provocou a extinção de três espécies de abutres no subcontinente indiano, o que levou à sua proibição em 2006.

 

«A sua recuperação não tem sido fácil. Foram tomadas algumas medidas, nomeadamente, a criação de zonas protegidas, livres de diclofenac», disse, ao jornal Os Bichos, Eduardo Santos, da Liga para a Protecção da Natureza (LPN).

 

«O que queremos é evitar chegar a essa situação em Portugal. Esperamos, por isso, que o medicamento não seja aprovado», sublinhou.

 

Em comunicado, várias Organizações Não Governamentais do Ambiente portuguesas referem que existem alternativas eficazes e com muito menos impacto nas aves necrófagas.

 

«A toxicidade associada ao diclofenac é elevadíssima, mesmo em animais saudáveis», sublinha Eduardo Santos.

 

Desde finais de 2016, está na Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária um pedido de autorização de comercialização de um medicamento para uso pecuário que contém esta substância na sua composição.

 

Em Abril do ano passado, a Assembleia da República aprovou um Projecto de Resolução do PAN que recomendava ao Governo a não aprovação do medicamento.

 

Já em Setembro de 2016, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, sigla em inglês) aprovara uma moção com a qual apelava aos governos que proibissem o uso de diclofenac veterinário.

 

Aves necrófagas portuguesas

Em Portugal, existem três espécies de aves estritamente necrófagas: o abutre-preto (Aegypius monachus), o abutre-do-egipto (Neophron percnopterus) e o grifo (Gyps fulvus). A primeira, está criticamente em perigo; a segunda, em perigo. Os abutres têm um papel importante na limpeza de cadáveres de animais da paisagem, limitando, desta forma, a transmissão de doenças.

 

Além destes, há ainda os milhafres e duas espécies de águias: a águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) e a águia-real (Aquila chrysaetos). Embora as aves de rapina sejam essencialmente predadoras, também costumam alimentar-se de cadáveres de animais.

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