Carta de um cão ao seu humano

Roberto Barata
Carta de um cão ao seu humano

Carta de um cão ao seu humano

Neste mês de festividades natalícias, escrevo-vos uma espécie de carta aberta dos cães aos seus donos com uma mensagem muito importante para reflectirem de outra perspectiva. Um feliz natal e um bom ano novo.

«Querido dono, tutor, proprietário, detentor, guardião, protector, etc…

Não sei como chamar-te ou etiquetar-te, porque facilmente posso ser mal interpretado pelos meus amigos se não utilizar as palavras da moda. Mas não me interessa como chamar-te, porque sou muito bem tratado por ti e é isso que interessa.

Esta minha idade canina avançada já permitiu o acesso às novas tecnologias. Recentemente, saiu um estudo realizado com alguns amigos caninos da minha idade que demonstrou a sua habilidade com os tablets, o que lhes vai permitir ter uma velhice em grande.

Estou muito contente, porque assim já não precisas de sair tantas vezes comigo, nem passear-me em ambientes com vários cheiros nem, por vezes, fazeres-me cheirar à procura da minha comida. Eu ficava mais satisfeito e cansado, talvez porque iam ao encontro com as minhas necessidades naturais, mas temos de seguir o mercado e dar-te o menor trabalho comigo, certo?

A pouco e pouco, até posso ir contigo aos lugares onde vais, assim continuas com a tua vida normal, despreocupada e eu continuo a adaptar-me ao teu mundo. Preferia ir a um lugar amplo, onde pudesse cheirar e correr, mas assim continuo a servir para servir-te, afinal deve ser o meu papel.

Também preferia quando antes não tinha de usar um objecto que me tapa a boca e uma trela curta. As leis humanas são um pouco estranhas, mas tenho a certeza que vocês, como seres racionais  verificaram e comprovaram que eu sou muito mau para os outros cães e pessoas, porque eu não sabia que o era. Talvez possamos ir para um país onde eu não o sou. Consegues racionalmente explicar-me esse fenómeno geográfico onde uns são maus e outros não, a mim que não entendo nada disso?

Peço desculpa pelo que eu sou e por ter nascido, porque era mais fixe quando eu podia ser cão e podia brincar com os outros ou podia pelo menos cheirar os novos odores e actualizar-me sobre a vizinhança. Sei que me criaste uma página no Facebook, talvez com o propósito de compensar essa falta de actualização da vida dos outros, mas não me deixas tocar no computador e nem eu quero tocar. Lembras-te quando eu era novo e assustei-me na primeira vez que vi o computador a funcionar e ladrei para ele? Tu gritaste-me e correste com um jornal atrás de mim, rapidamente ensinaste-me que o computador era algo mau e que eu devia manter a distância.

Prefiro este notebook que uso quando não estás em casa.

Mas sempre te preocupaste comigo, quando era mais novo fiz novos amigos humanos. Deixaste-me uma vez num lugar estranho por algum tempo e um senhor ia todos os dias tirar-me da box onde estava,  fazia-me correr e pedia-me umas coisas estranhas, como sentar e deitar. Às vezes, eu não queria, mas tinha de ser. Mas tudo voltou ao normal quando foste buscar-me e eu voltei ao meu ambiente, onde fazia exactamente o mesmo que antes. Foi bom voltar a casa. Por momentos, pensei que era o lugar onde levaste o meu irmão quando ele pulava nas pessoas e nas mesas e que, por mais que lhe gritasses e batesses, ele continuava a fazer isso. Mas segundo me lembro, o motivo dele se ir embora foi quando lhe bateste e ele te mordeu a mão sem avisar. Faz muito tempo que eu não o vejo, espero que esteja bem.

Gostei de ver-te na chamada de vídeo que fizeste há pouco pelo novo gadget que me compraste, assim consigo ver-te e tu podes ficar mais descansado, mas sinceramente eu preferia ter os puzzles que antes me deixavas e alguma comida para procurar pela casa. Lembras-te quando passavas mais tempo comigo a preparar desafios para mim com a comida? Eu ficava mais ocupado e não tinha  que criar missões de reconhecimento aos armários da comida e aos sapatos, ou roer os ossos que usas como pernas num lugar onde fazes as tuas refeições. Também continuo a não perceber porque sempre colocas um rolo branco na WC. Eu sei que estou velho, mas podias ao menos fechar a porta para eu ter mais trabalho. Mas não te preocupes, estou velho, prefiro o que tens em cima dos sofás.

Estar mais de 20 horas fechado em casa  por dia pode já não ser mau agora que estou velho, mas confesso que teria gostado de passeios maiores quando eu era mais novo. Às vezes, eu aguentava mais a bexiga apertada para que o passeio durasse mais. Tu é que não ficavas contente por causa da chuva, lembras-te? E a tua cara quando eu fazia xixi logo depois de chegar a casa? Impagável. Só não percebi os gritos nem uns sons estranhos que fazias. Segundo o tradutor que tens aqui, tu dizias «vingança». Desconheço essa palavra humana.

Mas sabes que mais? Por mais ruidoso e confuso que sejas, eu peço desculpa sempre. Talvez porque temos uma essência muito em particular, não sei, coisas caninas. Tu fizeste o favor de acolher-me na tua casa e dar-me comida. É o meu dever seguir as tuas regras e obedecer a tudo o que queres. Devo estar muito grato por me teres acolhido. Muito obrigado!

O futuro que se avizinha parece estranho, mas eu não ligo a isso, os humanos sabem o que fazem, e cada vez mais, nós, cães, estamos mais parecidos convosco. Esse futuro parece bastante promissor ao meu bem-estar e ao dos meus amigos caninos.

Tenho de ir, o gato também quer vir aqui, anda sempre a pesquisar no google «como dominar o mundo e os humanos» e fica a rir-se durante horas, não sei o que significa, mas ele não nunca me ligou nenhuma, foi culpa minha nunca te ter pedido para me ensinares a interagir com ele.. 🙁

Muitas «lambidelas»,

O teu cão.»

 

Roberto Barata é formado em etologia aplicada e antrozoologia. É tutor no Ethology Institute Cambidge, faz serviço independente de assessoria científica, mentoring e coaching. Vive na Dinamarca, onde efectua pesquisas e estudos nas suas áreas de formação e coopera com o Etologisk Institute na realização de formações personalizadas a profissionais da área animal, a detentores de animais de companhia e na modificação comportamental de cães, gatos e cavalos, maioritariamente. Escreve no terceiro sábado de cada mês e pode ser contactado através do seguinte endereço electrónico: reb@ethology.eu