Conservação

Nasceram dois lobos-marinhos nas Ilhas Desertas

Macho e fêmea terão nascido em Outubro, embora só recentemente tenham começado a sair das grutas. Mães e crias estão bem de saúde
Fátima Mariano
Fêmea de lobo-marinho e a sua cria na Madeira
Fêmea de lobo-marinho e a sua cria na Madeira
Fêmea Y e a sua cria nas Ilhas Desertas, uma das que nasceu este ano (foto: LIFE Madeira)

Duas crias de lobos-marinhos – um macho e uma fêmea – nasceram este ano nas Ilhas Desertas, no arquipélago da Madeira, onde vive uma das duas populações existentes no Atlântico (a outra é em Cabo Branco, entre a Mauritânia e o Saara Ocidental).

Os dois bebés terão nascido em Outubro, embora só agora – com cerca de um mês de idade – comecem a sair das grutas na companhia das mães, Parêntesis e Fêmea Y, disse ao jornal Os Bichos a bióloga Rosa Pires, do Instituto das Florestas e Conservação da Natureza da Região Autónoma da Madeira (IFCN-RAM).

Embora a observação dos animais seja feita à distância, Rosa Pires diz que as crias aparentam estar bem de saúde e que as mães têm um comportamento maternal normal. «Este tem sido um ano difícil para as observações porque o mar tem estado muito agitado. Não conseguimos confirmar quantas crias mais haverá», acrescentou.

Não se sabe quem é o pai destes dois bebés. A bióloga do IFCN-RAM diz que há um macho dominante, o Mascarilha, que tem sido observado junto das fêmeas. Cada macho pode acasalar com mais do que uma fêmea, mas não participa na educação das crias.

Cada fêmea tem apenas uma cria por ano. A gestação dura cerca de nove meses. Este facto não está cientificamente provado porque a fêmea tem a capacidade de retardar a fecundação após a introdução do espermatozóide, explica Rosa Pires.

Apesar de terem a capacidade de ir para o mar assim que nascem, normalmente, os lobos-marinhos começam a entrar na água com uma semana de idade. Nos primeiros três meses de vida, são amamentados – é a espécie de foca que amamenta até mais tarde -, mas a partir do primeiro mês, começam a alimentar-se também de peixe. Aos seis meses de idade, tornam-se completamente autónomos.

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As crias são amamentadas até aos 90 dias de vida. São a espécie de foca que amamenta até mais tarde (Foto: Rosa Pires)

Espécie em perigo

Também conhecida por foca-monge-do-mediterrâneo (Monachus monachus), esta é a espécie de foca mais ameaçada do mundo. Tem o estatuto de espécie Ameaçada em Perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, sigla em inglês), o mais elevado da escala de conservação.

Além da população do arquipélago da Madeira (que conta com 10 fêmeas e quatro machos adultos, além de um número não contabilizado de sub-adultos, juvenis e crias), existe uma outra em Cabo Branco, com cerca de 360 indivíduos, e outra no Mar Mediterrâneo, com cerca de 300.

A foca-monge-do-mediterrâneo chegou a existir em 24 países, distribuídos pela bacia do Mediterrâneo, o Mar Negro, a costa noroeste atlântica africana, e os arquipélagos das Canárias, Madeira e Açores. As maiores ameaças à conservação desta espécie são a pesca ilegal, a morte acidental e a destruição do seu habitat natural.

Lobo-marinho foi a designação dada pelos portugueses quando chegaram à Madeira em 1419 e viram numa pequena baía vários animais marinhos que uivavam e que nunca tinham visto. À baía deram o nome de Câmara de Lobos.

lobo-marinho da Madeira
O projecto de conservação do lobo-marinho da Madeira começou em 1988 (Foto: Rosa Pires)

Área protegida

O projecto de conservação do lobo-marinho da Madeira começou em 1988 numa altura em que existiam apenas seis a oito indivíduos. Um grupo de vigilantes da natureza tinha a seu cargo, entre outras missões, a sensibilização dos pescadores para a necessidade de não perturbarem os animais.

Dois anos depois, foi criada a Reserva Natural das Ilhas Desertas e são proibidas as redes de emalhar na zona (seriam-no em todo o arquipélago em 2001). Este é um tipo de arte de pesca em que os peixes e crustáceos ficam presos nas malhas das redes devido ao seu próprio movimento. Pode ter vários quilómetros de extensão e colocar em risco não só a fauna marinha, mas também a própria navegação.

Em 1997, foi construída uma Unidade de Reabilitação de Focas nas Ilhas de Desertas, que permite tratar os animais doentes.

Neste momento, Rosa Pires aponta como principais ameaças aos lobos-marinhos da Madeira as embarcações turísticas (que poderão aproximar-se muito deles) e os covos, armadilhas para a captura de diversos peixes e crustáceos.

«Os covos têm uma boca de entrada para os peixes em que os animais, sobretudo os juvenis, podem colocar a cabeça e depois ter dificuldade em tirá-la», diz a bióloga.

Os lobos-marinhos da Madeira não costumam afastar-se muito da costa. Habitualmente, não vão além das 11 milhas e evitam locais com pessoas. Por vezes, são avistadas nas praias, da ilha da Madeira, mas quando não está ninguém por perto.

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