Histórias de vida

«Antes do Bob, eu era apenas mais um número na estatística»

James Bowen viveu nas ruas de Londres e foi viciado em heroína. Depois de conhecer o gato Bob, a sua vida mudou por completo. Na semana passada, estiveram pela primeira vez em Portugal
Fátima Mariano
James Bowen e o gato Bob estiveram pela primeira vez em Portugal
O gato Bob e James Bowen estiveram pela primeira vez em Portugal
A cumplicidade entre James e Bob é notória nos mais pequenos gestos (foto: Diana Quintela)

A manhã de quinta-feira estava de chuva. Nada que aborrecesse o gato Bob, habituado que está ao clima húmido de Londres, onde vive com o dono, James Bowen. Chegou ao hotel, no centro de Lisboa, numa transportadora preta, com um cachecol em lã ao pescoço, a sua imagem de marca. Assim que o libertaram, começou a deambular. Sempre preso à trela.

Apesar da idade (são já 14 anos), Bob continua muito curioso. Cheira tudo à sua volta, especialmente os locais onde suspeita poder existir algo que se coma. E nunca recusa um miminho. Mesmo que esteja cansado, como era o caso no dia em que James Bowen deu uma entrevista ao jornal Os Bichos.

Os dois estiveram pela primeira vez em Portugal na semana passada para o lançamento do livro O que aprendi com Bob. Lições de vida de um gato de rua (Porto Editora).

Na véspera, de manhã, tinham visitado a Associação Animais de Rua, que receberá 50 cêntimos por cada exemplar vendido do novo livro. À tarde, mais de 300 pessoas quiseram conhecê-los durante a sessão de autógrafos que decorreu na livraria Bertrand do Chiado. Nesse mesmo dia, uma outra sessão iria ter lugar na Fnac do Centro Comercial Colombo e era previsível uma igual afluência de admiradores.

Já para não falar das várias entrevistas às quais Bob assistiu sem reclamar. Embora, é preciso dizê-lo em abono da verdade, os snacks que lhe iam oferecendo tivessem a sua quota-parte de responsabilidade para que aguentasse, sem soltar um único miado, os longos minutos de conversas com os jornalistas e as sessões fotográficas.

A cumplicidade entre Bob e James é notória aos olhos de qualquer um. A forma como brincam, como se mimam, como comunicam, como se protegem, como se amam, porque é de amor que se trata, mesmo que esteja em causa a relação entre um homem e um gato. E esta foi, precisamente, a primeira lição que Bob ensinou a James.

 

Diz no livro que o afecto que os animais de estimação sentem por nós, humanos, é incondicional. Que podemos confiar neles porque não nos mentem, não nos atraiçoam e não nos desiludem. Ao contrário das pessoas?

Os animais de estimação não nos julgam pela aparência, por aquilo que vestimos. Não interessa se somos ricos ou se somos pobres, inteligentes ou estúpidos. Eles vêem-nos como realmente somos. Não julgam o livro pela capa.

 

Há quem considere que se esteja a dar cada vez mais atenção aos animais de estimação do que às pessoas. Concorda?

Não consigo comentar. Honestamente, acho que não.

 

 

Mas a sociedade está a mudar a forma como olha para os animais.

A sociedade está a mudar de muitas maneiras. Algumas, boas, outras nem tanto. O mundo está em constante mudança.

 

O gato Bob apareceu à porta do prédio onde James vivia com uma pata ferida em 2007. Desde então, são inseparáveis (foto: Diana Quintela)

A solidão das ruas

James Bowen, actualmente com 39 anos de idade, nasceu em Surrey (Inglaterra) em 15 de Março de 1979. Quando os pais se separaram, mudou-se com a mãe para a Austrália. Mas o facto de não se fixarem num local durante muito tempo não ajudou à sua adaptação. Sofreu bullying na escola. Foi-lhe diagnosticado défice de atenção, esquizofrenia e depressão maníaca.

Em 1997, regressou ao Reino Unido. Viveu um ano com a meia-irmã e o marido desta, mas a relação entre os três nunca foi fácil. James passou a dormir nas ruas de Londres. Entre 1998 e 2005, viveu ora nas ruas, ora em abrigos. Começou a consumir heroína e a tocar guitarra em Covent Garden para conseguir sobreviver. Em 2006, entrou para um programa de metadona e no ano seguinte, quando vivia numa casa social em Tottenham, conheceu Bob.

 

Como é viver nas ruas de uma cidade como Londres sem a companhia de alguém?

É uma existência muito solitária, é difícil de sobreviver. Sobretudo no tempo frio, é difícil mantermo-nos secos. Mas Londres é uma cidade muito bonita. É uma grande cidade, mas isso não significa que tenha uma grande rede de suporte.

 

 

O Bob veio mudar isso. Como se conheceram?

No início de 2007, conheci o Bob. Ele pediu-me ajuda um dia. Levei-o à RSPCA (Sociedade Real para a Prevenção da Crueldade contra os Animais, em português) para tratar uma ferida que ele tinha e paguei a medicação dele com o último dinheiro que tinha. Cuidei dele até melhorar e tentei saber de quem era. Como ninguém sabia a quem pertencia, começou a viver comigo e a seguir-me para todo o lado. Um dia, seguiu-me até ao autocarro e foi comigo até ao centro de Londres onde eu tocava guitarra.

 

Bob ajudou-o durante o processo de desintoxicação?

Sim. Tomar conta de um gato é como tomar conta de uma criança. Se formos pais, para tomarmos conta de uma criança temos primeiro que tomar conta de nós, temos que ser saudáveis.

 

No livro conta que antes do Bob era invisível para o resto da sociedade.

Antes do Bob, eu era apenas mais um número na estatística. Ter o Bob comigo fez com que eu conseguisse com que as pessoas dessem mais atenção a coisas que eu nunca imaginei. Ele funcionou como um catalisador.

 

O que é que isso diz da nossa sociedade?

É verdade que as pessoas só falavam comigo porque eu tinha o Bob, mas ao menos estavam a ouvir-me. Às vezes, é preciso algo assim para nos focarmos.

 

 

No primeiro livro (A minha história com Bob) recorda como os outros vendedores da revista The Big Issue (equivalente à revista portuguesa Cais) não queriam que levasse o Bob consigo porque diziam que era concorrência desleal.

Sim, ficaram com muita inveja porque toda a gente perguntava pelo homem com o gato e diziam que só queriam comprar a revista a homem com o gato. Causou-me muitos problemas por causa da concorrência.

 

 

Não conheço a realidade inglesa, mas em Portugal, as associações que acolhem pessoas sem-abrigo não aceitam os seus animais de estimação.

Esse problema também existe em Inglaterra. As pessoas que vivem nas ruas com animais têm dificuldade em arranjar locais onde ficar. Preferem continuar a viver nas ruas porque não desistem dos seus animais.

 

 

Qual é a alternativa?

Terão que ser construídos mais abrigos que aceitem animais de estimação. Muitas vezes, eles são a única ligação que essas pessoas têm com a sociedade.

James Bowen e o gato Bob estiveram pela primeira vez em Portugal
Os dois amigos costumam visitar escolas e associações que apoiam pessoas sem-abrigo e animais abandonados (foto: Diana Quintela)

Lições de vida

Bob não foi o primeiro gato na vida de James, mas é, certamente, o mais especial. E deu-lhe muitas lições de vida ao longo destes 11 anos de amizade. Lições que James revela neste livro aos milhões de admiradores que os dois têm em todo o mundo.

Uma das lições de Bob é sobre a partilha. Ambos costumam visitar escolas e centros de acolhimento no Reino Unido e são voluntários da Blue Cross, uma associação de protecção animal fundada em 1897.

 

O que faz do Bob um gato tão especial? De que forma é que ele mudou a sua vida?

Ele é muito expressivo, gosta de conhecer pessoas. Tornou-me uma pessoa responsável, deu-me o impulso que faltava para mudar a minha vida, só por me amar e estar lá.

 

 

E que lições é que ele lhe ensinou?

Sobre compaixão, amizade, companheirismo, a importância de sermos uma equipa.

 

 

E o que espera que as pessoas aprendam ao lerem este livro?

Gostava que as pessoas apreciassem as pequenas coisas da vida, que partilhassem os problemas. Costumo dizer que um problema partilhado é um problema meado e que a boa sorte partilhada é boa sorte dobrada.

 

É também por isso que costuma visitar associações que ajudam pessoas sem-abrigo?

Elas ajudaram-me. Estou feliz por poder ajudá-las agora.

 

 

O que é que as pessoas lhe costumam dizer quando o encontram?

Que a minha história é inspiradora e que nos meus três livros anteriores aprenderam coisas que nunca tinham compreendido. E pessoas que não têm hábitos de leitura, só largam os meus livros depois de os lerem. Bob é um gato muito impressionante.

 

 

E quando ele morrer?

Ele ainda vai durar uns bons 10 anos. Não temos que nos preocupar com isso agora.

 

Terminada a entrevista, é altura de tirar as últimas fotografias. Lá fora, a chuva parou, o que permite que a sessão fotográfica decorra no exterior. São horas de almoço, mas Bob não reclama. Sobe para o ombro de James, com o à vontade de quem está mais do que habitual ao ritual. Cinco minutos depois, Bob está finalmente livre para dormir a tão merecida sesta antes de mais um banho de multidão.

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