Referendo

Vacas e cabras suíças vão continuar sem cornos

Maioria dos eleitores (54,7%) que votou no referendo deste domingo rejeitou a atribuição de um subsídio aos agricultores para que não descornem os animais
Bichos
vacas suíças vão continuar sem cornos
vacas suíças vão continuar sem cornos
O corte dos cornos das vacas e das cabras é feito entre as duas e as quatro semanas de idade sob anestesia

Mais de metade dos eleitores suíços (54,7%) que participaram no referendo deste domingo rejeitou a atribuição de um subsídio aos criadores de gado para que estes deixassem de cortar os cornos às vacas e às cabras.

Os cantões rurais foram aqueles nos quais se registaram mais votos negativos, com Friburgo (66,2%), Appenzall (66%) e Jura (65,2%) à cabeça. Apenas em seis cantões, com Genebra a liderar (59,9%), venceu o «sim».

Na consulta popular deste domingo participaram 2530 eleitores. Em causa estava a atribuição de um apoio financeiro aos proprietários de gado bovino e caprino para que deixassem os animais crescerem com os cornos.

Segundo o jornal La Liberté, na Suíça, três quartos das vacas e um terço das cabras são descornadas entre as duas e as quatro semanas de idade. Esta prática visa evitar que os animais se magoem em caso de luta.

Caso o «sim» vencesse, os criadores receberiam 190 francos suíços (cerca de 166 euros) por cada vaca e 38 francos suíços (33,40 euros) por caca cabra.

Para poderem ter direito ao subsídio, os empresários eram obrigados a deixarem os animais pastarem pelo menos 26 dias por mês no verão e 13 dias no inverno.

 

Despertar consciências

A iniciativa de levar esta proposta a referendo partiu de um grupo de agricultores e de algumas organizações ambientais, liderados por Armin Capaul.

Apesar da derrota, este agricultor de Jura diz-se satisfeito com o que alcançou. «Consegui colocar a questão do bem-estar das vacas na consciência das pessoas. Aqui, na Suíça, mas também um pouco por todo o mundo», disse ao jornal 24 Heures.

Prova disso é a quantidade de artigos escritos sobre o tema: 5000. Na sua quinta, em Perrefitte, recebeu 89 jornalistas, de países tão diferentes como a Suíça, a Suécia e o Brasil.

Apesar da derrota no referendo, Armin Capaul garante que não vai baixar os braços. «As vacas têm o direito a manter os seus cornos», sublinha.

 

cabras suíças vão continuar sem cornos
Um estudo deste ano da Universidade de Berna confirma que os animais sentem dor aguda nas três semanas seguintes à descorna

Bem-estar animal

A proposta não colheu o apoio do governo. Não só por causa da despesa que implicava – 15 milhões de francos suíços (cerca de 13 milhões de euros) anualmente -, mas também por poder prejudicar os esforços feitos para garantir o bem-estar animal.

Segundo o governo, se os criadores deixassem de descornar as vacas e as cabras, começariam a amarrá-las para evitar que lutassem e, consequentemente, se magoassem. O que iria contra a política de incentivo dos estábulos livres e os passeios ao ar livre.

A questão do bem-estar animal era o ponto-chave da proposta a votação. O ministro da Economia, Johann Schneider-Ammann (filho de um médico veterinário) chegou a afirmar que «não está provado cientificamente que a descorna provoque sofrimento ao animal» avança o jornal Le Temps.

Jean-Marie Surer, médico veterinário, partilha desta opinião: «Se o protocolo for respeitado, não creio que o animal sofra durante a operação, que dura cinco minutos».

O mesmo clínico acrescenta que o sofrimento é «um fenómeno subjectivo, dificilmente mensurável» e que castrar um cão ou um gato é «também um acto violento».

Um estudo publicado em Fevereiro pela Universidade de Berna contraria esta tese: a  descorna realizada segundo o protocolo praticado na Suíça provoca dor aguda, que se manifesta por uma híper-sensibilidade local à estimulação táctil e à pressão nas três semanas seguintes, independentemente da idade do animal.

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.