Adotar mais um gato não tem que ser um pesadelo!

Perceba o que pode fazer para que tudo corra bem!
Joana Leonardo
Adoptar um segundo gato não tem que ser um pesadelo

Adoptar um segundo gato não tem que ser um pesadelo

Dois gatos é melhor do que um? Na grande maioria das vezes,  sim, sem dúvida!

No entanto, é fundamental saber se estão reunidas as condições  mínimas para a satisfação das necessidades básicas da espécie.

Uma mudança de ambiente é sempre muito stressante para um felino e pode demorar algumas semanas até que este se sinta relaxado na sua nova casa.

Levine (2005) conduziu um estudo em 128 agregados familiares com vários gatos e em 124 apenas com um gato, constatando que cerca de 50% dos lares experimentam episódios iniciais de agressão quando se introduz um gato novo num lar.

Não foi constatada qualquer associação entre o número de animais, respetiva idade ou sexo e os conflitos que se produziram à chegada do novo gato.

Os conflitos constantes foram associados a um comportamento agressivo ou hostil logo no primeiro encontro (por exemplo, arranhar e morder) e no acesso ao exterior.

Também foi observada, nos gatos residentes, maior tendência para produzir silvos, arranhar, fugir e esconder-se do que no recém-chegado, o que provavelmente constitui um indicador de uma reação de medo.

É importante avaliar individualmente o caráter de cada gato sempre que pretender introduzir um novo gato no agregado.

Os animais com uma história pregressa de ansiedade ou tendência para fugir e esconder-se podem considerar o recém-chegado muito intimidante, especialmente se for um gato muito assertivo. Em contrapartida, os residentes muito seguros podem assediar o novo elemento da casa.

Antes de introduzir o novo gato no lar aconselhe-se com o seu médico veterinário para que seja feita uma avaliação clínica de ambos os animais e se verifiquem os planos vacinais.

Poderá ser necessário realizar um período de quarentena ao novo animal a fim de salvaguardar o contágio de doenças infeciosas que possam estar inicialmente camufladas.

O que deve fazer então para facilitar a chegada de novos gatos ao lar?

  • Criar uma zona separada para o novo elemento, assegurando todos os recursos essenciais ao bem-estar dos gatos, o que inclui: um área para a comida, outra para a água e um tabuleiro de areia em áreas separadas e de fácil acesso; um esconderijo tipo ninho ou caixote confortável; acesso a pelo menos uma zona elevada onde possa observar o ambiente; um local de descanso; um poste arranhador bem sólido e acessível; brinquedos que estimulem a predação (utilizar o movimento mas nunca estimular o ataque a partes do corpo como mãos ou pés); e finalmente um difusor de feromona felina sintética, o que aumenta a confiança e o apaziguamento;

 

  • Realizar as alterações necessárias de modo a que os gatos residentes disponham dos mesmos recursos;

 

  • Identificar as guloseimas favoritas dos gatos residentes e se possível do novo gato;

 

  • Se for possível, deve colocar junto do novo gato, uns dias antes de entrar na sua casa, um cobertor com o odor da sua casa. Esse cobertor deve acompanhar o gato durante a viagem, no interior da transportadora, que deverá ser tapada com uma toalha durante a viagem e borrifada com spray de feromonas 15 minutos antes da entrada do animal;

 

  • Logo à chegada, o novo gato deverá ser colocado na zona separada, chamada de zona de transição, sem permitir o acesso visual aos outros gatos residentes;

 

  • Acaricie com uma pequena toalha de algodão o corpo e a face de ambos os gatos e deixe a toalha de cada um no espaço do outro, repita este procedimento até que deixem de existir reacções negativas ao contacto com o odor do outro;

 

  • Logo que o novo elemento demonstre estar à vontade no seu espaço, deverá ser-lhe permitido explorar o resto da casa sem ser incomodado, colocando para esse efeito os gatos residentes numa zona confinada;

 

  • Aproximadamente ao fim de uma semana, se não ocorrerem comportamentos agressivos (rosnadelas, tentativas de ataque por baixo da porta,…) junto à zona de transição, poderão ser iniciadas breves experiências de contacto visual. Não deverá ser permitido ainda o contacto físico, recorrendo de preferência a portas envidraçadas ou barreiras de segurança de forma a que ambos se possam ver. Deve, neste momento, tentar captar a atenção de ambos para os brinquedos e petiscos favoritos;

 

  • Realizar estas apresentações visuais 2 a 3 vezes por dia, até que todos se demonstrem relaxados e não apresentem comportamentos agressivos;

 

  • Se não existirem manifestações de conflito, é o momento para iniciarmos o contacto de ambos, sempre com supervisão dos tutores, para que ao mínimo sinal de conflito possam retirar os gatos do espaço;

 

  • Nunca em momento algum, grite ou utilize castigos físicos. Só irão aumentar o medo e ansiedade dos animais o que prejudica todo o processo.

É fundamental ter muita paciência! Se a apresentação for conduzida de forma apressada, teremos com certeza reacções indesejadas, o que irá dificultar ainda mais a integração do novo gato. Por isso, não desista e peça ajuda ao seu veterinário se necessário.

 

No quarto sábado de cada mês, um/a médico/a veterinário/a das clínicas Vilavet e Tavivet escreve no nosso jornal. A dr.ª Joana Leonardo é Master em «Comportamento e Bem-estar em animais de companhia» pela Universidade de Zaragoza , estando actualmente a frequentar uma pós-graduação na «Intervenção na doença comportamental em animais de companhia».  Pode contactá-la através do seguinte endereço electrónico: joanavmleonardo@gmail.com