Comércio

O lado oculto da indústria das peles: canibalismo e auto-mutilação dos animais

Imagens gravadas em duas quintas na Finlândia mostram raposas, visons e guaxinins gravemente feridos, doentes e com deformações
Bichos
Pele de raposas
Pele de guaxinim
Foram encontrados animais com feridas abertas infectadas, doenças oculares e malformações

Visons, raposas e guaxinins foram filmados dentro de gaiolas, em quintas finlandesas, a praticarem actos de canibalismo e com ferimentos de tal forma graves que as suas vidas estavam em risco. É o lado negro da indústria do luxo.

Segundo o jornal Independent, as quintas pertencem a alguns dos principais fornecedores das mais caras e luxuosas marcas e vendedores da Grã-Bretanha.

A denuncia, feita pela Human Society International (uma organização que trabalha em prol dos direitos dos animais), visa pressionar o governo britânico a proibir a importação e venda de peles verdadeiras de animais.

Os investigadores revelam que encontraram «condições deploráveis e um sofrimento angustiante» em dois centros na Finlândia certificados como respeitando o bem-estar animal.

As imagens foram gravadas em Outubro num centro de produção de peles onde foram vistas raposas «com as patas deformadas e doenças oculares, e visons com feridas abertas infectadas, alguns mesmo até praticando o canibalismo», segundo a Human Society Internacional.

Os investigadores contaram ter visto um animal «ensanguentado e ofegante» a ser comido por um outro animal que estava na mesma jaula.

 

Importações em alta

Segundo uma testemunha contou ao jornal Independent, foram encontradas quatro martas mortas dentro de uma jaula e outras feridas. Algumas não tinham olhos, apresentavam lacerações, cortes e sangramento do nariz.

Numa outra quinta, onde foram encontradas cerca de duas mil raposas prateadas, guaxinins e raposas-do-ártico, os investigadores contaram que os animais estavam sobrealimentados. Uma técnica utilizada para aumentar a quantidade de gordura no pêlo.

Especialistas em bem-estar animal dizem que mantê-los nas condições descritas em jaulas pequenas causa-lhes traumas físicos e psicológicos permanentes.

Desde 2003, é proibida a produção de peles na Grã-Bretanha por motivos humanitários. Desde então, segundo o mesmo jornal, foram importadas peles no valor de cerca de 788 milhões de euros, dos quais 16 milhões da Finlândia.

A maioria das peles é importada da China, EUA, França, Itália e Polónia. Só no ano passado, o Reino Unido importou peles no valor de quase 85 milhões de euros.

Pele de raposas
Em algumas quintas, os animais são forçados a comerem para que o pêlo tenha mais gordura

Estilistas atentos

Em declarações ao Independent, Claire Bass, da Human Society Internacional, afirmou: «Ver em primeira mão estes animais mentalmente deprimidos e até mesmo conduzidos ao canibalismo foi totalmente desolador. Nas suas minúsculas gaiolas, a sua qualidade de vida é zero».

E acrescentou: «É doentio que o comércio de peles ainda tente justificar este sofrimento claro dos animais, e esperamos que a nossa investigação encoraja os designers que ainda usam peles a verem além da farsa da chamada “peles de alto bem-estar”».

Recentemente, o francês Jean Paul Gaultier anunciou que vai deixar de usar peles verdadeiras nas suas colecções, juntando-se a um grupo cada vez maior de estilistas que tomou a mesma decisão.

A edição deste ano da Semana da Moda de Londres ficou marcada por ser a primeira em que as peles verdadeiras não marcaram presença.

 

Raposas electrocutadas

Os produtores de peles devem respeitar as recomendações do Conselho da Europa sobre o bem-estar animal. As directrizes dizem: «Quando existe um nível significativo de estereotipia [comportamento repetitivo] ou auto-mutilação em martas numa quinta, o sistema de alojamento ou de manejo deve ser alterado de forma apropriada de modo a melhorar o bem-estar animal. Se estas medidas não forem suficientes, a produção deve ser suspensa».

A investigação agora revelada encontrou diversos sinais de violência entre os animais enjaulados. O fornecedor de peles garantiu, entretanto, que deu instruções aos proprietários das quintas para que os animais fossem vistos por médicos veterinários.

Na Finlândia, o maior fornecedor de peles de raposa da Europa, existem cerca de 900 quintas destas. Estima-se que todos os anos são criadas e electrocutadas à volta de 2,5 milhões de raposas para este fim.