Estudo

Aranhas citadinas estão a perder o medo da luz

Estudo realizado com falsas viúvas-negras concluiu que a iluminação artificial não as incomoda, provavelmente devido à necessidade de procurar alimento
Bichos
aranhas urbanas perdem o medo da luz
aranhas urbanas perdem o medo da luz
É nas zonas iluminadas que as aranhas encontram muitos dos insectos dos quais se alimentam (foto: navisgermany/Pixabay)

Não são boas notícias para quem não gosta, ou tem mesmo medo, de aranhas. Segundo cientistas de três universidades europeias, as aranhas citadinas estão a perder o medo da luz. Por isso, se vive numa zona urbana, não estranhe se começar a ver mais teias à sua volta.

Para realizarem este estudo, investigadores das universidades de Ratisbona e Ludwig-Maximillians (ambas na Alemanha) e Aarhus (na Holanda) colectaram sacos de ovos de aranhas em áreas urbanas e rurais da Alemanha, França e Itália. O seu objectivo era verificar se a reacção destes animais à luz se estava a alterar.

Posteriormente, as aranhas que nasceram destes ovos foram colocadas em caixas expostas à luz de um lado e mantidas no escuro do outro.

«Descobrimos que as crias das zonas rurais evitavam o lado iluminado e gostavam de construir as suas teias no escuro», explicou ao jornal Telegraph Ana María Bastidas-Urrutia, bióloga da Universidade Ludwig-Maximilians, de Munique, uma das co-autoras do estudo.

Já quanto às aranhas citadinas, a iluminação artificial parecia não as incomodar, acrescentou a mesma responsável.

 

Fome, a quando obrigas

Os resultados desta pesquisa foram publicados na revista científica The Science of Nature. Os seus autores acreditam que esta mudança de comportamento é evolutiva e deve-se à necessidade de procurar alimento.

Os insectos, como as mariposas (das quais as aranhas se alimentam), são frequentemente atraídos pelas luzes artificiais.

Como as aranhas utilizadas no estudo foram colectadas na natureza antes de eclodirem, os investigadores estão convencidos de que este comportamento resulta de uma mudança genética. Isto porque durante a experiência não tiveram tempo para aprender que o número de presas é maior nas zonas iluminadas.

 

Falsa viúva-negra

O estudo centrou-se na aranha falsa viúva-negra (Steatoda nobilis), uma espécie muito comum no sul da Europa. A sua teia difere-se das restantes pelo facto de aparentemente não ter uma forma definida. É normalmente encontrada nos cantos das salas ou em sótãos pouco utilizados.

No entanto, Tomer Czaczkes, biólogo da Universidade de Ratisbona, e a sua equipa acreditam que estas mudanças também estão a acontecer com outras espécies de aranhas que vivem em áreas urbanas.

Ouvido pelo Telegraph, Maxime Dahirel, ecologista da Universidade de Ghent (Bélgica) considera que a resposta das aranhas à luz depende da espécie.

«Um artigo recente mostrou que o aumento da exposição à luz levou à redução da sobrevivência em outras espécies. Pode haver alguns efeitos positivos para algumas espécies, mas provavelmente negativos para muitas outras», sublinhou.