O imprinting e a vinculação (Parte V) – Nos mamíferos

Luís Vicente
imprinting e vinculação nos mamíferos

imprinting e vinculação nos mamíferos

Em mamíferos demonstrou-se um processo a que se pode chamar inverso de imprinting, a VINCULAÇÃO MÃE-CRIA.

Em ovinos e caprinos era bem conhecida a existência de uma ligação exclusiva entre a mãe e a cria. Em meados da década de setenta do século passado, Poindron e Le Neindre desenvolveram estudos com o objectivo de compreender este comportamento nas ovelhas.

Começaram por constatar que, nas primeiras horas após o parto, o comportamento da ovelha é quase exclusivamente dirigido à cria. Quase todo o tempo é dedicado a lamber e amamentar a cria. Ao mesmo tempo é extremamente agressiva e violenta para com qualquer cordeiro estranho que se aproxime.

Contudo, se a mãe for separada da cria durante as 12 horas que se seguem ao parto, existirão perturbações no que respeita à aceitação da cria.

Poindron e Le Neindre demonstraram assim a existência de um período pós-natal inferior a 12 horas, ao longo do qual a mãe se liga selectivamente à cria.

Por outro lado, demonstraram que existe uma relação entre este fenómeno e os níveis séricos de esteróides. Fêmeas tratadas com hormonas esteróides aceitam espontaneamente as suas crias após 24 horas de separação.

Parece ser fundamentalmente a estimulação olfactiva que desempenha um papel crucial na aceitação e reconhecimento da cria pela mãe.

No entanto, os sinais olfactivos não parecem ser os únicos a determinar a ligação da mãe à cria. Sinais visuais, acústicos e mesmo gustativos parecem reforçar o processo.

Cosnier em 1984, fala em “comunicação pluri-canal”.

A identidade da cria é veiculada por intermédio de uma combinação complexa de diferentes tipos de sinais, parecendo o sistema cumprir a lei da somação heterogénea.

[cada estímulo-sinal provoca uma reposta com uma determinada intensidade; quando vários estímulos diferentes são apresentados em simultâneo a resposta aumenta em intensidade como se os efeitos dos estímulos se somassem – “somação” que significa soma, adição, e “heterogénea” salientando a heterogeneidade dos estímulos].

Montagnier demonstraria que nos humanos, a ligação da mãe à cria segue os mesmos princípios gerais.

(A Parte IV deste artigo pode ser lida aqui)

Luís Vicente é investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. É biólogo, doutorado em Evolução e professor de Comportamento Animal e de Neurobiologia. Escreve no segundo sábado de cada mês.