Raças potencialmente perigosas ou cães potencialmente em perigo? – Parte III

Roberto Barata
Raças potencialmente perigosas

Raças potencialmente perigosas

Na continuação da segunda parte , abordemos outras questões e tópicos relevantes para esta discussão.

 

Na componente do treino, outra das discussões referem-se aos materiais utilizados. Ainda é comum o uso de materiais cujo único objectivo é inflingir desconforto ou dor para diminuir comportamentos, com justificações moralistas na fronteira com a dissonância cognitiva. Por outro lado, várias correntes extremistas e de cariz dogmático ditas “positivas”, estão a destruir definições, conceitos e modelos científicos e a preferir criar etiquetas e slogans para fins comerciais.

 

Actualmente, existe uma grande corrente fashionista de protagonismo sobre o assunto, dando a ideia de que alguns indivíduos ou entidades (à procura de holofotes) “travaram” essa batalha através de posições ou discursos emocionais. Na verdade, desde 2003 que vários estudos sobre os efeitos do uso de determinados materiais no treino animal estão disponíveis e deixo-os para vossa apreciação.

 

Ninguém coloca em causa a eficiência dos mesmos, mas numa sociedade onde os próprios promotores políticos de leis de bem-estar animal desconhecem que esses materiais são utilizados (mesmo em cães de assistência ou terapia), é importante colocar em discussão pública estes assuntos com a finalidade de promover uma profunda reflexão e começar a dar a devida credibilidade aos verdadeiros profissionais de treino animal, que dedicaram vários anos ao estudo, pesquisa e implementação prática dos seus conhecimentos e não às péssimas assessorias de “especialistas” e outros “profissionais” limitados ao conhecimento teórico e sem conhecimento de campo ou competência para tal, que teimam em afirmar-se na área.

 

Neste momento, qualquer pessoa que frequente um seminário de dois ou três dias ou um curso de poucas semanas intitula-se treinador, educador, monitor, especialista, comportamentalista, etólogo, master, e outros títulos que somente ao nível académico ou em instituições internacionais são obtidos. A “ciência” é aprendida em slides, grupos sociais, conversas de corredor, artigos de blogues e da cópia grotesca de trabalhos de outros profissionais.

 

A completa banalização da actividade também permite que pessoas de outras áreas se destaquem na área do treino animal social, mesmo que as suas competências sejam apenas genéricas e teóricas, ou de outras áreas que não são compatíveis com esta área específica. A constante procura de uma silhueta social apenas cria características narcisistas e o efeito Dunning-Kruger.

 

Considero esta lei um “lavar de mãos” que, devido à urgência de se apresentar algum resultado, está a basear-se nas próprias limitações de conhecimento nacional em relação a este assunto. Prova disso é, por exemplo, a afirmação no sense presente na legislação de que a socialização dos cães das raças perigosas ou potencialmente perigosa seja feita a partir dos seis meses. Existe uma ausência de conhecimento científico nesta legislação e uma fraca assessoria, que preferiu condenar um grupo, não refletindo sobre a gravidade maior deste problema.

 

Caberá a cada um de nós ou fechar os olhos e compactuar com a realidade actual, ou colocar questões pertinentes na sociedade de forma a estimular  uma discussão construtiva, que permita criar bases sólidas para trazer seriedade e profissionalismo a uma actividade menosprezada e banalizada por todos, inclusive por quem dela vive.

 

Contudo, não nos podemos esquecer de que ao compactuarmos e aderirmos ao silêncio, devido ao politicamente correcto, estaremos a ser cúmplices de tudo e não estaremos a defender os animais, conforme o dizemos.

 

Podemos escolher entre o politicamente correcto e continuarmos todos amigos a concordar com o facto de que algo está mal, ou sairmos da área de conforto com questionamentos que não vão agradar a muitos, e  trabalharmos inteligentemente com a  “racionalidade” que tanto pregamos quando nos interessa ter atitudes antropocêntricas, devido à fraca argumentação e conhecimento científico sobre os assuntos.

 

No próximo artigo, irei concluir a minha análise sobre este assunto.

 

Roberto Barata é formado em etologia aplicada e antrozoologia. É tutor no Ethology Institute Cambidge, faz serviço independente de assessoria científica, mentoring e coaching. Vive na Dinamarca, onde efectua pesquisas e estudos nas suas áreas de formação e coopera com o Etologisk Institute na realização de formações personalizadas a profissionais da área animal, a detentores de animais de companhia e na modificação comportamental de cães, gatos e cavalos, maioritariamente. Escreve no terceiro sábado de cada mês e pode ser contactado através do seguinte endereço electrónico: reb@ethology.eu