O imprinting e a vinculação (Parte IV) – Nos invertebrados

Luís Vicente
O imprinting e a vinculação

O imprinting e a vinculação

No rescaldo da revolução burguesa em França, nos finais do século XVIII, um dos grande revolucionários, Lamarck que nos viria a dar os primeiros fundamentos científicos daquilo a que chamamos hoje “Teoria da Evolução”, propôs a reestruturação do Museu de História Natural de Paris, reestruturação essa que viria a ser apresentada na Assembleia Nacional por Joseph Lakanal.

Conta Jules Michelet que viria a ser um dos principais historiadores da Revolução Francesa, num livro autobiográfico, que no processo de reestruturação do Museu houve uma reunião entre os vários professores para “distribuição de serviço”, ou seja, para distribuição das diferentes cátedras.

É então que Lamarck diz “eu, obviamente, fico com os animais sem vértebras”, ou seja, Lamarck ficou com 97% das espécies animais deste Planeta, ficou com aqueles animais, invertebrados, que não possuem nem desenvolvem uma coluna vertebral, nem um crânio.

Em 1975, Pierre Jaisson demonstrou em formigas a existência de fenómenos de imprinting.

Partiu de um estudo do conhecido fenómeno de “escravatura” exercido por umas espécies de formigas sobre outras. Nos seus trabalhos, Jaisson estudou a “escravatura” exercida por Formica sanguinea sobre Formica fusca.

O que se passa com estas espécies, é que a primeira “rapta” casulos da segunda, que transporta para a sua própria colónia. Quando as obreiras de Formica fusca eclodem, são imediatamente aceites pela espécie que as raptou, e passam a assegurar todos os cuidados com os ovos, as larvas e os casulos das raptoras.

A componente experimental do trabalho de Jaisson consistiu em colocar obreiras adultas de Formica fusca (portanto, sem qualquer experiência de contacto precoce) em contacto com casulos de Formica sanguinea. O resultado foi a destruição dos casulos de Formica sanguinea por Formica fusca, ao contrário do que sucedia quando estas eram raptadas ainda no estado de casulo.

Ficou assim demonstrado que, a não ser que houvesse uma experiência muito precoce de familiarização da espécie escravizada com a espécie escravizadora, a primeira apenas seria capaz de prestar cuidados à sua própria espécie.

Trata-se tipicamente de um fenómeno de imprinting – uma escolha selectiva daquilo que o indivíduo conheceu no seu primeiro contacto com o mundo exterior logo após a metamorfose – só possível precocemente, e para o qual Jaisson demonstrou que o período sensível corresponderia aos primeiros dias após a eclosão.

Posteriormente, o mesmo fenómeno foi demonstrado por outros autores noutras espécies de formigas.

Nas abelhas evidenciou-se a existência de imprinting ao odor vegetal logo a seguir à eclosão – determina a escolha das plantas a explorar.

 

(A Parte III deste artigo pode ser lida aqui)

Luís Vicente é investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. É biólogo, doutorado em Evolução e professor de Comportamento Animal e de Neurobiologia. Escreve no segundo sábado de cada mês.