Abandono

“Temos andado a tratar os animais errantes como um resíduo urbano”

A Associação Nacional dos Médicos Veterinários dos Municípios considera que o país não está preparado para o fim da eutanásia como método de controlo das populações de animais errantes
Fátima Mariano
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“Se banalizarmos o animal de rua, será mais fácil abandoná-lo”, alerta Ricardo Lobo, dirigente da ANVETEM (foto: Design Foto/Pixabay)

A ANVETEM – Associação Nacional dos Médicos Veterinários dos Municípios considera que Portugal não está preparado para o fim da eutanásia como forma de controlo das populações de animais errantes (que entra em vigor este domingo) e que com a actual legislação, o país vai regredir.

Ricardo Lobo, membro da direcção da ANVETEM e veterinário municipal em Vila Nova de Cerveira, defende que a única forma de deixar de eutanasiar esses animais é conseguindo que o número daqueles que entram nos centros de recolha oficial (CRO) seja equilibrado com o número dos que são adoptados.

“Temos andado a tratar os animais errantes como um resíduo urbano”, critica. “É preciso ter um número residual de animais e que estes sejam adoptados por pessoas que os queiram, e que tenham condições para os ter. Neste momento, queremos impingir animais às pessoas”.

Esclarecendo que não está contra a lei, mas sim contra o momento em que esta entra em vigor, este médico veterinário municipal diz que primeiro deveria ter-se estudado as causas do abandono de animais. “Precisaríamos de pelo menos 10 anos para nos adaptarmos, e dissemo-lo numa reunião prévia que tivemos com o PAN. A lei ataca o problema no fim da cadeia. Ninguém se preocupou em perceber a origem dele”, sublinhou ao jornal Os Bichos.

 

Perigo do surgimento da raiva

A médio prazo, esta medida irá fazer com que o número de animais errantes aumente ainda mais, avisa a ANVETEM. Se os CRO não tiverem capacidade para os acolher, eles continuarão na rua. Ricardo Lobo lembra que não são apenas os cães e gatos abandonados que estão em causa: “São também aqueles que se perdem, os que estão à guarda das autoridades policiais, aqueles cujos donos morrerem, etc.”.

A lei, diz o mesmo médico veterinário, vai desencorajar alguns autarcas a avançarem com investimentos que planeavam fazer e prejudicará o trabalho de pedagogia que as câmaras municipais e as associações têm vindo a fazer nas escolas.

“Ao deixarmos os animais na rua, estamos a deitar por terra todo o trabalho de educação. As crianças vão começar a perguntar porque há tantos animais abandonados. Se banalizamos o animal de rua, será mais fácil abandoná-lo”, sublinha.

Ricardo Lobo alerta ainda para o perigo de poderem surgir casos de raiva, doença oficialmente erradicada do país desde 1960. Lembra que a Organização Mundial para a Saúde Animal recomenda como medidas de prevenção, entre outras, a vacinação de animais domésticos e selvagens e o controlo das populações de animais errantes.

“Recentemente, em Espanha, entrou um cão vindo de Marrocos, que estava infectado. Esse cão mordeu um cão em Espanha e outro cão e uma pessoa em França”, conta.

 

Esterilização não resolve o problema

Quando questionado sobre se a esterilização/castração ajudaria a resolver o problema, como defendem muitos activistas dos direitos dos animais, Ricardo Lobo é taxativo: “não”.

“A lei fala em esterilização dos animais que estão nos CRO e esses não se reproduzem. Os que reproduzem são os que estão na rua”, explica. “Esterilizar um animal que está num CRO não liberta espaço, nem o encaminha directamente para a adopção. O problema é que não temos pessoas a virem buscar animais aos CRO”.

O mesmo dirigente da ANVETEM diz que “há pessoas que assentaram a sua actividade” em torno dos animais de rua. “Queremos acreditar que são poucas”, refere. Acrescenta que as associações “muitas vezes se substituem aos CRO”, mas defende que é urgente “regulamentar a sua actividade”.

Ricardo Lobo garante que nenhum MVM “gosta de eutanasiar animais”. “Fazemo-lo com muitas dificuldades. Somos os obreiros de uma política com a qual não concordamos”, afirma.

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