Problema

Número de animais abandonados não pára de aumentar em Portugal

Há concelhos cujos centros de recolha oficial de animais abandonados estão sobrelotados e onde não há associações zoófilas
Fátima Mariano
abandonados
abandonados
abandonados
abandonados

O número de animais abandonados em Portugal não pára de aumentar e a ANVETEM (Associação Nacional de Médicos Veterinários dos Municípios) receia que o problema se agrave com a proibição das eutanásias como forma de controlo das populações errantes. Recorde-se que o abandono de animais é crime ao abrigo da Lei n.º 69/2014, de 29 de Agosto.

De acordo com a Ordem dos Médicos Veterinários, em 2017, o número de animais abandonados cresceu 22% em comparação com o ano anterior. Até Agosto deste ano, já tinham sido recolhidos 14 mil cães e gatos de rua pelos CRO. A estes, há que acrescentar os que estão em associações zoófilas, em Famílias de Acolhimento Temporário (FAT) e os animais comunitários (como as colónias de gatos legalizadas em vários concelhos).

Das 42 câmaras municipais que responderam às perguntas do jornal Os Bichos, algumas revelaram que o seu CRO está lotado (como o Seixal) ou sobrelotado (figura 1). Em alguns concelhos, não há associações de protecção de animais, segundo as autarquias (figura 2).

 

Medidas de apoio

Várias câmaras têm medidas de apoio a pessoas carenciadas que tenham animais de estimação, como o cheque veterinário (protocolado com a Ordem dos Médicos Veterinários e que possibilita tratamentos gratuitos de vacinação, esterilização/castração e desparasitação). Vinte e sete responderam não ter (figura 3).

Embora não exista um CRO em Aveiro, a Câmara tem em prática a campanha «Animais de Companhia», que integra uma linha de atendimento telefónico e um veículo para a recolha de animais abandonados.

A Câmara da Amadora tem um protocolo com a LPDA (Liga Portuguesa dos Direitos do Animal) que permite às pessoas/famílias comprovadamente carenciadas usufruírem de consultas médico-veterinárias, esterilização/castração, vacinações e desparasitações do seu cão ou gato de forma gratuita. No caso o Seixal, o protocolo é com a Animalife.

Em Odivelas, os munícipes com baixos rendimentos têm uma redução no preço dos serviços praticados no Consultório Veterinário Municipal (criado em 28 de Junho de 2002); em Oeiras, além do cheque veterinário, a autarquia oferece ração.

 

Promoção de adopções

A maioria das câmaras referiu a Os Bichos que os animais acolhidos no CRO são todos esterilizados/castrados. Os cães e gatos são entregues vacinados e com identificação electrónica (como determina a lei no caso dos canídeos) e em alguns concelhos, são entregues de forma gratuita. Mas há excepções.

O Canil Intermunicipal do Alto Minho cobra 20 euros por cada animal adoptado, que é entregue vacinado, com microchip e esterilizado/castrado. Em Évora, quem adopta um gato paga uma taxa de 11,5 euros; no caso dos cães, o valor sobe para os 16,74 euros, mas estes saem com a vacina múltipla e contra a raiva, esterilizado/castrado, com microchip e desparasitado e muitos também com treino de obediência básico.

Em Odivelas, caso o adoptante resida no concelho, o animal pode ser acompanhado no Consultório Veterinário Municipal. Todos os animais adoptados no CRO são esterilizados/castrados e recebem a vacina anti-rábica, um quilo de ração, 10 aulas de obediência e um banho. Aos adoptantes são cobrados 18 euros pela identificação electrónica.

Em Silves, os cães adoptados têm identificação electrónica, vacina anti-rábica válida por três anos, estão negativos à leishmaniose e estão desparasitados interna e externamente. São entregues mediante o pagamento de 19 euros, valor correspondente às taxas cobradas pela Direcção-Geral da Alimentação e Veterinária por estes actos

Em alguns CRO, a pessoa interessada em adoptar um cão ou gato tem que preencher um formulário ou participar numa entrevista para que o médico veterinário municipal avalie se tem condições para ter o animal. Em Póvoa de Lanhoso, por exemplo, é feita uma visita ao local onde o animal ficará alojado; noutros concelhos, como por em Vila Nova de Gaia, é feito um acompanhamento durante o período de integração do animal no novo lar.

Santa Maria da Feira tem uma listagem de maus adoptantes. No Seixal, quem quiser adoptar um animal e não encontrar um «que se adeqúe às suas exigências», preenche um formulário e é contactado quando surge «um cão ou um gato com o perfil pretendido».

A Câmara de Arouca admitiu que não promove campanhas de adopção de animais «por insuficiência de recursos».

 

«Cidadãos não estão preparados»

Apesar das campanhas contra o abandono animal e das medidas de incentivo à adopção responsável, há médicos veterinários municipais (MVM) que lamentam o facto de os cidadãos não estarem preparados para acolherem em casa de forma responsável um cão ou um gato.

O MVM de Silves, Luís de Sousa Aleixo, refere que os cidadãos começaram a «interiorizar que deter um animal não é como deter um boneco e que, como tal, existem responsabilidades a ter». Acrescenta que «há a noção de que em caso de incumprimento as forças policiais atuam e as coimas são elevadas» e que, diversas vezes, os potenciais adoptantes «procuram cães de raça ou que não tenham microchip» (obrigatório por lei).

No mesmo sentido, a Câmara de Oliveira do Hospital salientou que a maioria das adopções recai sobre animais de pequeno porte (até 10 quilos de peso).

Isabel Lameira, MVM na Câmara de Torre de Moncorvo, tem uma opinião semelhante: «A população não está preparada para a posse responsável de um animal de estimação (não pretendem assumir responsabilidades na sua guarda, alimentação e despesas associadas)».

A médica veterinária do município de Amarante, por seu turno, recorda que «só deverá ser tomada a decisão de adoptar um animal quem achar que de facto tem disponibilidade emocional, financeira, de espaço físico e tempo».

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.