Conservação

133 charcos temporários mediterrânicos identificados na costa sudoeste portuguesa

Projecto LIFE Charcos, coordenado pela Liga para a Protecção da Natureza, termina no final do mês. Estas depressões pouco profundas são importantes para algumas espécies da flora e da fauna
Fátima Mariano
charcos
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Diversas espécies da fauna e da flora adaptaram-se ao ciclo de enchimento/seca dos charcos

O Projecto LIFE Charcos, coordenado pela Liga para a Protecção da Natureza (LPN), identificou 133 charcos temporários mediterrânicos na costa sudoeste portuguesa. Embora o projecto só termine oficialmente no final do mês, os resultados de cinco anos de trabalho foram apresentados na manhã desta quinta-feira em Odemira.

Estas zonas húmidas temporárias (que podem ter entre 50 metros quadrados a sete hectares de área e cuja coluna de água pode variar entre os 50 e os 70 centímetros de profundidade) encontram-se ameaçadas, apesar do seu alto valor para o equilíbrio do ecossistema.

Os charcos são de extrema importância para algumas espécies da fauna e da flora, que se adaptaram à alternância de condições de encharcamento (outono e inverno) e de secura (primavera e verão). No caso da flora, encontram-se na costa sudoeste, por exemplo, espécies com o estatuto de ameaçadas (Pilularia minuta), quase ameaçadas (Isoetes setaceum) ou vulneráveis (Caropsis veticillo-inundata e Hyacintoides vicentina).

Em conjunto com a Universidade de Évora (uma das entidades parceiras do projecto), foi constituído um Banco de Germoplasma com sementes de 166 espécies de plantas, das quais 87 são características dos Charcos Temporários Mediterrânicos e 29 que, embora não exclusivas deste habitat, são frequentes nele.

 

Do tempo dos dinossáurios

Também para a fauna, os charcos são importantes. No caso dos anfíbios (rãs, sapos, salamandras, etc.), Rita Alcazar, coordenadora do projecto, explica ao jornal Os Bichos que os charcos são “um local mais seguro do que as ribeiras” quando estão na fase larvar (girinos). “Nas ribeiras, há peixes, que são predadores”, lembra. Quando os charcos ficam vazios, estes animais já têm a forma adulta, respirando pelos pulmões (brânquias internas) e não pelas guelras (brânquias externas).

Outras espécies que podem ser encontradas nos charcos são os crustáceos grandes branquiópodes, como os camarões-fada (Anostraca), que nadam de barriga para cima e não têm carapaça; os camarões-concha (Spinicaudata), cujo corpo é protegido por uma carapaça constituída por duas valvas, como as conchas das amêijoas; e os camarões-girino (Notostraca), cuja carapaça é de grandes dimensões, tem a forma de escudo e cobre apenas a parte anterior do corpo.

Estas espécies, que são contemporâneas dos dinossáurios e dependem dos charcos temporários para a sua existência, “têm a capacidade de estarem vivas quando há água nos charcos”, diz a coordenadora do projecto. Durante a fase de encharcamento, colocam os ovos enquistados (cistos), que são resistentes à seca e que eclodem quando o charco volta a encher. No caso dos camarões-concha, os ovos podem manter-se viáveis durante vários anos, se a seca se prolongar.

As três espécies têm períodos de vida relativamente curtos. Os camarões-girino e os camarões-concha podem viver até aos cinco meses de idade; os camarões-fada, entre oito a 15 dias.

 

Rede de Custódia

Aprovado pela Comissão Europeia, o Projecto LIFE Charcos arrancou em Julho de 2013. A escolha do Sítio de Importância Comunitária da Costa Sudeste da Rede Natura 2000 prende-se com o facto de ser uma área naturalmente rica nestas depressões pouco profundas. Contou com a parceria de instituições públicas e privadas, nomeadamente as universidades de Évora e do Algarve, a Câmara Municipal de Odemira e a Associação de Beneficiários do Mira.

“Trata-se de uma área que tem uma orografia e um tipo de solo propícios ao aparecimento deste tipo de habitat natural”, justifica Rita Alcazar. “Alguns foram desaparecendo, fruto da actividade humana. Identificámos 133, mas admitimos que possam existir mais”.

Além da identificação destas zonas húmidas temporárias e da criação do banco de sementes, foi criado o Centro de Interpretação dos Charcos Temporários do Sudoeste Alentejano no concelho de Odemira, passeios temáticos, sessões de esclarecimento, entre outras actividades.

Foi também implementada uma Rede de Custódia dos Guardiões para a protecção dos Charcos Temporários. Tratam-se de instituições ou particulares que contribuem para a conservação destes habitat, monitorizando-os ou divulgando-os nas escolas e na rede de amigos, por exemplo.

 

 

 

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