Raças potencialmente perigosas ou cães potencialmente em perigo? – Parte II

Roberto Barata
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Na continuação da primeira parte, voltemos às próximas questões e tópicos relevantes para a discussão.

Actualmente, existem progressos importantes de salientar na componente da ética animal. Contudo, estas mudanças estão a ser muito rápidas e de extremos, onde pensamentos «contractarianistas» (pensamento de que os animais não humanos não têm nenhum direito por não terem nenhum contrato social) inconsistentemente utilizam um discurso utilitarista (pensamento que defende que as consequências devem ser satisfatórias para ambas as partes) emocional, mas das consequências desejáveis e não das consequências reais das acções.

Entramos assim noutra discussão que se refere ao treino dos cães, em geral. A palavra «treino» em si já cria uma dicotomia sobre os limites do mesmo. Isto porque os checklists padrões para todos os cães são por si discriminatórios e não respeitam o indivíduo como tal, nem as suas especificidades/limitações.

Ainda existe uma resistência às habilidades cognitivas de algumas pessoas ao afirmarem que os treinos operacionais e / ou desportivos adequam-se à realidade dos cães e dos seus detentores na sociedade, onde para serem considerados «bons cidadãos» necessitam obrigatoriamente de efetuarem X exercícios, mesmo que na sua rotina diária os mesmos não sejam necessários. Estamos, na realidade, a gastar tempo e energia de ambas as espécies. No primeiro artigo que escrevi para este jornal, abordo este assunto, onde demonstro que esses modelos de treino são obsoletos.

Outro assunto prende-se com a certificação de treinadores. Devido à inexistência de regulamentação ou reconhecimento da profissão, não existe uma matriz de conhecimentos básicos que todos os profissionais deveriam ter. Contudo, segundo esta legislação, apenas é necessário a aprovação num exame teórico-prático com a duração de um dia, sem qualquer formação prévia.

Deixo aqui algumas questões para reflexão:

– Qual a formação dos avaliadores desta certificação, além de metodologias e conhecimentos das suas áreas de actuação (treino operacional) e como foi feita a selecção dos mesmos?

– Qual o procedimento de avaliação dos candidatos tendo em vista que a actividade profissional não é regulamentada no país? Podemos assumir que um detentor sem experiência de treino que passe no exame teórico-prático (mesmo que o cão não tenha sido treinado por si) está apto para ser um treinador certificado?

– Depois desta certificação, estarão eles aptos a efectuarem a modificação comportamental dos cães e a realizarem/prestarem serviços de terapias comportamentais, das quais algumas valências apenas são obtidas ao nível académico?

– Qual o modelo e programa de treino que serão efectuados pelas escolas? Fica ao critério individual? Quais as bases para tal? Quem fiscaliza?

No próximo artigo, irei continuar a minha análise sobre este assunto.

 

Roberto Barata é formado em etologia aplicada e antrozoologia. É tutor no Ethology Institute Cambidge, faz serviço independente de assessoria científica, mentoring e coaching. Vive na Dinamarca, onde efectua pesquisas e estudos nas suas áreas de formação e coopera com o Etologisk Institute na realização de formações personalizadas a profissionais da área animal, a detentores de animais de companhia e na modificação comportamental de cães, gatos e cavalos, maioritariamente. Escreve no terceiro sábado de cada mês e pode ser contactado através do seguinte endereço electrónico: reb@ethology.eu

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