O imprinting e a vinculação (Parte III)

Luís Vicente
vinculação

vinculação

Como agora podemos facilmente compreender, o imprinting filial determina o imprinting sexual.

É também de notar que o imprinting não se estabelece apenas em relação a seres vivos ou objectos móveis (sons, substrato, alimentos, etc., podem também ser fonte de imprinting). Portanto, a natureza dos estímulos desencadeadores é diversa, variando de grupo para grupo (nos mamíferos, por exemplo, foram identificados estímulos olfactivos e tácteis).

No que respeita às características dos estímulos de imprinting filial, os trabalhos experimentais sugerem que os estímulos estáticos têm pouco efeito, os estímulos móveis que se afastam são mais eficientes que os estímulos móveis que se aproximam. Assim, o imprinting não é só de natureza visual, mas também olfactiva e auditiva, e até táctil e gustativa.

Um caso bastante interessante foi estudado nalgumas espécies de anfíbios anuros. Para quem não sabe, os anfíbios anuros são os sapos, as rãs e as relas (pererecas no Brasil). São animais vertebrados como nós que pertencem à classe Amphibia (duas vidas, aquática e terrestre) e à ordem Anura (sem cauda).

Estas espécies passam por metamorfoses: dos ovos eclodem girinos com cauda, sem membros e com respiração branquial, perfeitamente adaptados à natação. Progressivamente perdem a cauda, adquirem patas, primeiro as traseiras e depois as anteriores, a respiração passa de branquial a pulmunar e é a aquisição destas novas qualidades que lhes permite a passagem ao meio terrestre. Quando adultos regressam à água na altura da reprodução, aí depositando os seus ovos.

Muitas espécies de anfíbios anuros têm imprinting ao substrato. O que é que isto significa? Se os ovos forem depositados, por exemplo, num substrato arenoso, se tiverem opção de escolha entre diferentes tipos de substrato, tenderão a escolher substratos semelhantes áquele onde eclodiram. Acresce que, quando adultos, tendem a escolher um substrato semelhante para depositarem os seus ovos.

São de facto animais muito interessantes. Diversas espécies, desde as primeiras fases aquáticas, possuem a capacidade de reconhecimento familiar (reconhecimento consanguíneo). Algumas são mesmo capazes de distinguir entre irmãos e primos. Mas isto fica para outra altura. Agora falamos de imprinting.

Embora o fenómeno de imprinting tenha primeiramente sido reconhecido em aves precociais, posteriormente foi também posto em evidência em aves altriciais, em mamíferos, noutros vertebrados e mesmo em alguns invertebrados. Nalgumas espécies demonstrou-se que o imprinting pode ser anterior à eclosão – estímulos recebidos no estado larvar podem determinar o comportamento adulto.

(A Parte I deste artigo pode ser lida aqui e a II, aqui)

Luís Vicente é investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. É biólogo, doutorado em Evolução e professor de Comportamento Animal e de Neurobiologia. Escreve no segundo sábado de cada mês.

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.