Ameaça

População de abutres-pretos está a aumentar no Alentejo

Este sábado, assinala-se o Dia Internacional dos Abutres, uma espécie de vital importância para o equilíbrio dos ecossistemas, mas que está ameaçada em todo o mundo
Fátima Mariano
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Murtigão é um dos dois machos que nasceu este ano na Herdade da Contenda, em Moura (foto: Liga para a Protecção da Natureza)

A população de abutres-pretos (Aegypius monachus), a espécie de abutre mais ameaçada em Portugal, está a aumentar no Alentejo. Este ano, oito casais nidificaram na Herdade da Contenda, no concelho de Moura, sendo que dois conseguiram procriar com sucesso. Há cerca de quatro meses, nasceram dois machos, que deverão abandonar o ninho com sucesso em breve, segundo a Liga para a Protecção da Natureza (LPN).

Esta espécie voltou a reproduzir-se no Alentejo em 2015, depois de mais de quatro décadas sem registo de nascimento de crias a sul do rio Tejo. Este é o quarto ano consecutivo que o abutre-preto se reproduz com sucesso nesta região, o que significa que terão migrado para cá indivíduos vindos de colónias espanholas, segundo Eduardo Santos, da LPN.

Um dos factores que torna esta espécie vulnerável em comparação com outras é o seu longo período reprodutor. Normalmente, nidificam em Janeiro e Fevereiro; a postura ocorre entre Fevereiro e Abril; as crias nascem 60 dias depois. Começam a voar habitualmente entre os 110/120 dias de vida, mas permanecem ainda dependentes dos pais mais algum tempo. Acresce ainda que o abutre-preto só atinge a sua maturidade sexual aos cinco anos de idade.

 

Abutre-preto criticamente em perigo

Este sábado, assinala-se o Dia Internacional dos Abutres. O objectivo é alertar as populações para as ameaças que enfrentam estas aves necrófagas, vitais para o equilíbrio dos ecossistemas. Existem 25 espécies em todo o mundo, com diversos graus de ameaça.

Em África, por exemplo, são alvo do chamado «envenenamento sentinela», ou seja, envenenamento dirigido à espécie, por parte dos caçadores furtivos. Alimentando-se da carcaça de outros animais, os abutres acabam por ajudar as autoridades a localizarem as zonas onde elefantes e rinocerontes são mortos por causa do comércio ilegal dos chifres. Noutras regiões do continente africano são mortos para que partes do seu corpo sejam utilizadas na medicina tradicional.

Em Portugal, existem três espécies de abutres: além do abutre-preto, existem ainda o abutre-do-egipto (Neophron percnopterus) e o grifo (Gyps fulvus). A primeira está classificada como criticamente em perigo; a segunda, é considerada em perigo; a terceira é a única que não está ameaçada.

O abutre-preto deixou de nidificar em Portugal no início da década de 1970. A espécie só regressou como reprodutora a Portugal em 2010. Actualmente, existem cerca de 15 casais no Tejo Internacional, oito no Alentejo e um no Douro Internacional.

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O abutre-preto deixou de nidificar em Portugal em 1970, só regressando em 2010
Poucas condições para nidificarem

Os oito casais nidificantes da Herdade da Contenda utilizaram os cinco ninhos artificiais anteriormente utilizados pelo programa LIFE «Habitat Lince Abutre» e três em ninhos naturais. Eduardo Santos explicou ao jornal Os Bichos que, ao contrário das outras espécies, o abutre-preto nidifica «em árvores de grande porte e não em rochas». «Não há muitos locais disponíveis com estas condições», lamenta.

No último ano, a monitorização da reprodução desta espécie e as medidas de conservação implementadas nesta região foram realizadas no âmbito do projecto Orniturismo – Conservação, Protecção e Valorização do Património Ornitológico, co-financiado a 75% pelo Programa de Cooperação Interreg V A Espanha-Portugal (POCTEP) 2014-2020.

Uma das crias nascidas este ano foi marcada com um emissor GPS/GSM e anilhada, para a sua posterior identificação no terreno. Foi baptizada de Murtigão, nome do curso de água mais importante que atravessa a herdade onde nasceu e onde já fez os seus primeiros voos.

 

Várias ameaças

Sendo aves necrófagas, os abutres são importantes para a remoção dos cadáveres e a reciclagem da matéria orgânica, lembra Eduardo Santos, evitando, assim, a proliferação de doenças e a contaminação dos solos. A escassez de alimento, devido à legislação que obriga à recolha dos cadáveres, é uma das ameaças à sobrevivência da espécie.

A LPN gere 10 campos de alimentação em zonas de pecuária e agrícolas. Após a análise das carcaças por parte do médico veterinário da LPN, para garantir as condições sanitárias e de segurança das mesmas, estas são colocadas em diversas herdades para que os abutres se possam alimentar.

O envenenamento ilegal é outro dos factores de ameaça. Embora o uso destes produtos tóxicos não seja dirigido aos abutres, mas a predadores (como raposas e cães assilvestrados), ao alimentarem-se dos cadáveres destes, estas aves necrófagas acabam também por morrer.

Eduardo Santos destaca ainda o diclofenac, um anti-inflamatório não esteróide utilizado para o tratamento do gado, que está a aguardar o licenciamento da Direcção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV) para começar a ser comercializado em Portugal. De acordo com a LPN, a ingestão de animais tratados com diclofenac provoca insuficiência renal aguda nestas aves necrófagas, culminando na sua morte num curto espaço de tempo. «Há fármacos alternativos, com preços similares. É incompreensível como não foi ainda recusado», afirma Eduardo Santos.

O mesmo responsável lamenta também que o Plano Nacional para as Aves Necrófagas esteja desde 2015 há espera de aprovação da tutela.

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