O meu cão tem diabetes. E agora?

Catarina Santana
diabetes

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«O meu animal está estranho. Come mais, bebe muita água e urina mais do que era habitual. Está mais sossegado, está diferente!» Esta é muitas vezes a descrição efectuada pelo tutor do animal ao médico veterinário; após alguns exames, chega o diagnóstico: o seu animal tem diabetes mellitus. E agora?

Em primeiro lugar, precisamos perceber o que significa isto. A diabetes mellitus é uma doença endócrina crónica, complexa e que se estima que afecte 1 em cada 500 cães a nível mundial (Poulin, 2017). Resulta de uma produção de insulina insuficiente pelo pâncreas ou de uma inadequada resposta do organismo à mesma. Qualquer um destes processos irá resultar em elevadas concentrações de glucose na circulação sanguínea, assim como numa inadequada absorção da principal fonte de energia – a glucose – pelas células do organismo.

Na prática clínica percebemos muitas vezes a surpresa do tutor aquando da comunicação do diagnóstico. Muitos afirmam não ter conhecimento da existência da doença nos animais de companhia. No entanto, devemos salientar que embora o diagnóstico possa ser avassalador (já que o animal irá requerer tratamento pelo resto da sua vida), este não é uma sentença de morte! A pergunta seguinte é: porquê? Como é que o meu cão ficou diabético?

Na espécie canina, embora esteja documentada a existência de uma predisposição genética para o desenvolvimento da diabetes mellitus, os estudos indicam haver também factores exógenos, tais como a obesidade, a diminuída actividade física, a sobrealimentação e o estado reprodutivo, como predisponentes ao desenvolvimento da doença. Neste último ponto, é de salientar a maior predisposição nas cadelas não esterilizadas relativamente às cadelas esterilizadas e nos machos (cerca de duas vezes superior). Recentemente, foi também documentada a influência do tipo de alimentação fornecida ao animal no desenvolvimento da doença.

Segundo Poppl, et al. 2017, os canídeos alimentados apenas com alimento comercial apresentam uma probabilidade cerca de quatro vezes inferior de desenvolver diabetes mellitus do que um animal nas mesmas condições (raça, idade, etc.) cujas refeições não sejam exclusivamente alimento comercial. A utilização de outras fontes alimentares conduz, na maioria dos casos, ao fornecimento de refeições não balanceadas, ricas em carboidratos e gordura, que aumentam os riscos para a saúde do animal.

O tratamento da doença tem como principais objectivos a manutenção de valores de glicemia (nível de glucose sanguínea) aproximadamente normais, evitando valores demasiado elevados (hiperglicemia) e demasiado baixos (hipoglicemia), ambos potencialmente fatais. Desta forma, conseguiremos eliminar os sinais clínicos da doença e minimizar as potenciais complicações da diabetes mellitus (p. ex. infecções dermatológicas, infecções de tracto urinário, cataratas, entre outras).

A terapia a instituir assenta em três pilares fundamentais: a administração regular de insulina, a alimentação apropriada e a prática de exercício físico regular. Nesta fase, o tutor do animal diabético desempenha um papel fundamental, sendo indispensável uma estreita relação de confiança e cooperação entre o tutor e o médico veterinário.

O tutor deve ser capaz de monitorizar os níveis de glicemia, administrar a insulina, controlar a dieta e cumprir o plano de actividade física prescrito ao animal. Em caso de dúvida ou se detectar qualquer alteração, deve sempre contactar o médico veterinário assistente sem hesitar. É na monitorização do animal que reside parte do sucesso da terapia, daí que o tutor desempenhe um papel determinante. Com o passar do tempo, irá conseguir reconhecer os sinais de alerta cada vez com menos dificuldade e, juntamente com o médico veterinário, adequar facilmente a terapia.

Quanto ao prognóstico, este depende maioritariamente de três elementos: do tutor, do médico veterinário e da resposta do animal à terapia. Contudo, com a dedicação e motivação do tutor, tratamento apropriado, monitorização e estilo de vida adequados, o cão diabético pode ter a mesma esperança de vida que a de um cão não diabético.

 

No quarto sábado de cada mês, um/a médico/a veterinário/a das clínicas Vilavet e Tavivet escreve no nosso jornal. A drª Catarina Santana é mestre em Medicina Veterinária pela Universidade de Évora (2012). Realizou o estágio curricular na Universidade de São Paulo (USP-Brasil) e no Hospital Veterinário Muralha de Évora. Tem frequentado cursos de formação e participado em congressos nas áreas de medicina interna e oftalmologia, as suas principais áreas de interesse.

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