Efeméride

«Nunca na vida questionei se era um gato preto. É um gato»

No Dia da Apreciação do Gato Preto, que se assinala esta sexta-feira, falámos com duas tutoras e uma voluntária de uma associação protectora dos animais
Fátima Mariano
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Varuna tem 17 anos de idade e é neto da Lilith, uma gata também preta que Helena e o namorado apanharam da rua (foto: Direitos Reservados/Helena Avelar)
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Varuna é o nome de um deus hindu associado à cor preta (foto: Direitos Reservados/Helena Avelar)
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Miss Fu-Fu Henri têm cinco anos de idade e são irmãos (foto: Direitos Reservados/Sandra Calvar)
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Ao contrário do irmão, Miss Fu-Fu adora confusão e barulho (foto: Direitos Reservados/Sandra Calvar)

Helena Avelar nem sequer hesita quando lhe perguntamos se alguma vez parou para pensar na cor de Varuna: «Nunca na vida questionei se era um gato preto. É um gato». E quando a questionamos sobre a crença de que os gatos pretos dão azar, também não hesita na resposta: «Isso é só uma desculpa para não se tratar bem os animais».

Esta sexta-feira, assinala-se o Dia da Apreciação do Gato Preto. Embora tenha surgido nos Estados Unidos da América, a data já se alastrou a outros países, onde se realizam acções de esclarecimento e de adopções apenas de gatos pretos. O objectivo é combater a discriminação de que estes felinos são vítimas, devido à crença popular de que trazem azar por causa da cor do pêlo.

«Nunca nenhum gato preto me deu azar. A minha vida corre bem ou mal quando tem que correr bem ou mal, não é porque tenho um gato preto», diz Helena Avelar, que tem Varuna (nome de um deus hindu associado à cor preta) desde que este nasceu, há 17 anos. «Ele é um gato bom, que gosta de outros gatos», sublinha.

 

Bom presságio. Mau presságio

Nem sempre o gato preto esteve associado ao azar. Na Pérsia antiga, por exemplo, acreditava-se que era um espírito amigo que estava na Terra para fazer companhia ao Homem. Na mitologia Celta, acreditava-se que as fadas assumiam a forma de um gato preto e, por isso, estes eram considerados um sinal de boa sorte.

No século XVIII, os piratas acreditavam que quando um gato preto se afastava de uma pessoa era sinal de sorte (o inverso, de azar). Na Alemanha, ainda hoje, algumas pessoas acreditam que se um gato preto se cruzar no seu caminho da direita para a esquerda, é um bom presságio (no sentido inverso, é mau).

A associação do gato preto às trevas e à magia negra surgiu na Europa durante a Idade Média com a ascensão da Igreja Católica. Em 1233, o papa Gregório IX emitiu a bula Vox in Rama, que terá sido o primeiro documento oficial da Igreja Católica a reconhecer o gato preto como a encarnação de Satanás e a dar o beneplácito à sua tortura e morte. Com a criação do Santo Ofício, os inquisidores foram instruídos para atirarem às fogueiras os gatos pretos vivos juntamente com as mulheres acusadas de bruxaria.

Esta crença chegou ao continente americano com os primeiros colonos ingleses. Também aqui houve caça às bruxas (como a famosa caça às bruxas de Salém, no estado do Massachusetts, em Outubro de 1692) e, consequentemente, aos gatos pretos.

 

Quem quer adoptar um gato preto?

Os períodos mais perigosos para os gatos pretos são os dias que antecedem as sextas-feiras 13 e o Halloween. Há muitas associações que acolhem animais abandonados que, nesses períodos, não deixam que esses gatos sejam adoptados, pois o objectivo pode ser utilizarem-nos em rituais de magia negra.

Rita Sousa, voluntária da Asaast – Associação dos Amigos dos Animais de Santo Tirso, não entende como é que «tendo a sociedade evoluído tanto, ainda se procuram essas pessoas». Rita conta que no primeiro contacto com o potencial adoptante, percebe logo qual é o seu propósito: «Essas pessoas nunca dizem directamente para que querem o gato preto. Mas quando explicamos as regras – que o animal tem que ser esterilizado, que nós vamos depois visitá-lo a casa, etc. -, desistem logo».

Normalmente, os gatos pretos são os últimos da ninhada a serem adoptados. Ou não o são de todo. Sandra Calvar já viveu essa experiência. Em casa vivem a Miss Fu-Fu e o Henri, dois irmãos com cinco anos de idade. Ela, preta; ele, amarelo.

«Eles foram apanhados na rua com dois meses de idade. Tive algumas pessoas que quiseram adoptar o Henri, mas nenhuma para a Miss Fu-Fu. Ainda tentei que adoptassem os dois, porque ele é muito dependente da irmã, mas não consegui», recorda. Resultado: a Fuzinha e o Riki, como são carinhosamente tratados, ficaram lá em casa.

Sandra diz que ele é «muito cauteloso e sereno»; ela já «gosta de confusão». Juntamente com a Laura, a filha de Sandra, de 16 meses de idade, adora pôr a casa num reboliço. «Um gato preto é um gato, nunca pensei sequer na cor dele», sublinha, acrescentando que teve uma gata preta, a Pituca, durante 18 anos. «Eu nunca escolhi um gato. Foram sempre eles que me escolheram», remata.

2 Comentários
  1. Helena Avelar 4 meses atrás
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    Excelente reportagem!

  2. Leonor 4 meses atrás
    Responder

    Gostei muito de ler este artigo. Os gatos pretos são iguais aos outros, bonitos e majestosos. Já tive o prazer de partilhar a minha vida com (até agora) 4 e todos encheram/enchem o meu coração.

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