O imprinting e a vinculação (Parte II)

Luís Vicente
imprinting

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K. Lorenz descobriu ainda que a ligação do jovem ao objecto ocorreria mais facilmente durante um curto período imediatamente após a eclosão. Este período é chamado de período crítico para o imprinting e tem variabilidade específica, ou seja, varia de espécie para espécie. Quanto ao desenvolvimento do imprinting sexual, F. Schultz demonstrou que o período crítico em aves precociais é posterior ao do imprinting filial.

E. Hess idealizou uma série de experiências com patos que lhe permitiram demonstrar que, mesmo durante o período crítico a capacidade de imprinting é variável em função do tempo, havendo um aumento inicial até ser atingido um momento óptimo, ao qual se segue um decréscimo dessa capacidade. A possibilidade de se relacionar a curva de sensibilidade ao imprinting com outras características do desenvolvimento neuromotor e comportamental do jovem patinho permitiu a sua compreensão.

P. Bateson em 1964 descobriu que a efectividade de um estímulo aumenta com a sua conspicuidade. Mas há limites. Imediatamente após a eclosão, o patinho tem dificuldade em andar, não pode seguir o estímulo de imprinting e as suas capacidades auditivas, visuais e tácteis são ainda fracas. O desenvolvimento destas capacidades acompanha o desenvolvimento da receptividade ao imprinting. O decréscimo da capacidade de imprinting imediatamente após o ponto crítico é normalmente atribuído a um complexo de variáveis a cujo conjunto se pode chamar «medo».

De facto, imediatamente após o período crítico, muitas aves precociais desenvolvem um comportamento de aflição caracterizado por um aumento drástico de pios e atitudes de agachamento e fuga que é provocado pelo aumento dos níveis de adrenalina. Teorizou-se então que o fim do período crítico corresponderia à altura em que as glândulas suprarrenais adquirem a sua funcionalidade em pleno e o animal passa a experimentar «medo».

Tudo leva a crer, portanto, que os processos maturacionais relacionados com o «medo» sejam primariamente responsáveis pelo fim do período crítico. Aparentemente o comportamento emitido pela ave em relação ao estímulo de imprinting reflecte a resolução de duas tendências em conflito: uma para responder filialmente, outra para apresentar reacções de «medo».

O período crítico corresponde ao tempo em que as reacções de «medo» ainda não emergiram e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento neuromotor é suficiente para que o processo possa ocorrer.

Resumindo: o processo de imprinting envolve dois mecanismos – a reacção de perseguição e a identificação do objecto perseguido.

Ao caracterizar o processo de imprinting, Lorenz atribui-lhe as seguintes características:
1. tem um período crítico (ou sensível),
2. é irreversível,
3. é predictivo (aparece antes de ser necessário) e
4. é supra-individual (fixa características gerais e não individuais).

Trata-se portanto de um conceito de aprendizagem programada, ou seja, aprendizagem de coisas particulares, por meios específicos, em períodos pré-definidos da vida.

(A Parte I deste artigo pode ser lida aqui)

 

Luís Vicente é investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. É biólogo, doutorado em Evolução e professor de Comportamento Animal e de Neurobiologia. Escreve no segundo sábado de cada mês.

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