Conservação

Apesar do habitat favorável, os lobos só ocupam 21% do território da Península Ibérica

A não colonização de novas áreas pelos lobos poder dever-se à mortalidade provocada pelo Homem, diz um estudo realizado por investigadores portugueses e espanhóis
Fátima Mariano
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Existem entre 2000 a 3000 lobos na Península Ibérica, sobretudo à volta da bacia do rio Douro

Um estudo realizado por investigadores portugueses e espanhóis concluiu que apesar de 55% do território da Península Ibérica possuir um habitat favorável ao lobo (Canis lupus), apenas 21% é ocupado por esta espécie. Não sendo a disponibilidade de um habitat com boa qualidade um factor impeditivo da expansão do lobo, os cientistas levantam a hipótese de que a não colonização de novas áreas poderá dever-se à mortalidade provocada pelo Homem.

«A colonização de novas áreas com baixíssima densidade humana pode estar a ser limitada pela mortalidade provocada pelo Homem a sul do rio Douro, quer de forma legal (em algumas regiões de Espanha), quer ilegal em Portugal. Assim, é necessário analisar os níveis críticos de mortalidade adicional provocada pelo Homem que impedem a recolonização em áreas favoráveis à ocorrência de lobo», explica, num comunicado enviado à imprensa, Alberto Fernández-Gil, co-autor do estudo e especialista em conservação de grandes carnívoros na EBD-CSIC.

As conclusões desta investigação foram recentemente publicadas na revista científica Animal Conservation. Para realizarem este estudo, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, os autores compilaram a informação de vários trabalhos realizados em Portugal e Espanha e utilizaram as localizações dos lobos e as variáveis ambientais cedidas por diversas associações.

Ao jornal Os Bichos, Clara Grilo, do Grupo O Lobo e a autora principal, explicou que as conclusões só em parte foram surpreendentes. «Achávamos que o habitat não era tão bom como veio a revelar-se», referiu. Por outro lado, em algumas regiões de Portugal «ainda há perseguições ilegais aos lobos por razões económicas», uma vez que a falta de presas silvestres faz com que eles ataquem os rebanhos, acrescenta. Há animais capturados com recurso a laços ou envenenados, mas «é muito difícil contabilizar o seu número».

 

União de esforços

Os investigadores descobriram que os lobos estão a procurar zonas de altitude, próximas de cursos de água e com alimento disponível, e a evitar as áreas densamente ocupadas pelo Homem. Na altura do nascimento das crias, escolhem zonas onde os encontros com o ser humano são improváveis.

No noroeste Península Ibérica existem entre 2000 a 3000 lobos, sobretudo à volta da bacia do rio Douro. Em Portugal, trata-se de uma espécie protegida, devido ao risco de extinção; em Espanha, é considerada uma espécie ameaçada, protegida pela Convenção de Berna e pela Directiva Europeia para os Habitats, mas a sul do rio Douro, pode ser abatida em algumas circunstâncias.

Tendo em conta que as medidas de protecção do lobo são diferentes em Portugal e em Espanha (e mesmo aqui, há disparidades regionais), os autores do estudo defendem que «a coordenação de organismos e agências que actuam ao nível local, como as instituições de conservação da natureza, florestas, vida selvagem e infraestruturas rodoviárias, é necessária para uma conservação bem-sucedida das populações de lobos em áreas bastante humanizadas».

«A cooperação entre Portugal e Espanha é essencial para a protecção efectiva da população do lobo partilhada pelos dois países», concluiu Clara Grilo.

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