Lisboa

Aqui, no Cemitério dos Prazeres, há gato…

No Dia Mundial do Gato, apresentamos-lhe a colónia do Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. A cuidadora, Josefina Paulo, tem 82 anos de idade e já não vive sem a sua família felina
Fátima Mariano
Cemitério

Mais ou menos à hora a que Josefina Paulo é esperada no Cemitério dos Prazeres, eles começam a juntar-se na entrada. Eles são as dezenas de gatos que pertencem a uma das quase 800 colónias legalizadas da cidade de Lisboa. Assim que a cuidadora chega com o saco da comida, não mais a largam. É assim todos os dias, com excepção dos domingos.

Josefina Paulo, de 82 anos de idade, conhece o Cemitério dos Prazeres como as palmas das suas mãos. Começou a frequentar este espaço com cinco anos de idade, acompanhando a madrinha, responsável pela limpeza de várias campas e jazigos. Já nessa altura havia gatos, mas não tantos. Mais de 70 anos depois, é ela quem agora faz esse serviço, conta, enquanto nos mostra um cesto com dezenas de chaves. «Se não fosse assim, como é que eu podia alimentá-los?», pergunta.

Todos os dias, leva mais de 50 latas de patê para os gatos. Alimenta-os, muda-lhes a água, lava-lhes os pratos, confere se estão bem de saúde, ralha-lhes quando se portam mal, mima-os e desabafa com eles. Já não se vê sem esta sua família de quatro patas.

Quando foi operada ao coração, esteve internada uma semana. «Eu só dizia para a enfermeira que queria ir para o cemitério. E ela dizia, preocupada, que tinha muito tempo para isso. Até que a minha filha lhe explicou porque é que eu dizia aquilo», recorda, entre gargalhadas.

Explica que cada gato tem a sua personalidade, como as pessoas. Há os espertalhões, que comem junto ao grupo da entrada e depois seguem para o grupo do centro do cemitério para comerem mais, e aqueles que não se deixam apanhar, sobretudo quando vêem a carrinha da Casa dos Animais de Lisboa (CAL), que os leva para serem esterilizados.

Mas há também casos de solidariedade entre eles. Zinga Zinga (ou Break Dance, como também é conhecida) é uma gata cinzenta que nasceu no cemitério com um problema de saúde. Tem dificuldades de locomoção. «Um veterinário explicou-me que como ela foi a última a nascer, deve-lhe ter faltado o oxigénio durante o parto», diz Josefina Paulo.

Nenhum dos outros gatos lhe faz mal. Pelo contrário. «Quando é na hora da comida, eles afastam-se do prato para que ela possa comer descansada», acrescenta, orgulhosa.

 

Catarina, a gata dos funerais

CemitérioHistórias sobre os gatos do Cemitério dos Prazeres, há muitas. Pedro de Sousa, coveiro há 15 anos, recorda com saudades a gata Catarina. «Ia para todo o lado comigo. Sempre que havia um funeral, ela ia à frente do cortejo fúnebre comigo. Depois, sentava-se junto à cova. Algumas pessoas não gostavam», recorda, com saudades, ao jornal Os Bichos.

Catarina viveu 12 anos no cemitério. Um dia, desapareceu e nunca mais ninguém a viu. «Procurei-a por todo o lado, para a enterrar, mas não a encontrei», lamenta Pedro de Sousa, que é quem cuida da colónia aos domingos ou quando, por qualquer motivo, Josefina Paulo não o pode fazer.

Havia um casal que se colocava junto ao portão do cemitério com ar ameaçador para todos os cães que por ali passavam, como que os avisando que o melhor era nem sequer pensarem em entrar. E um macho que «levava a passear» os gatos bebés quando as mães os deixavam sozinhos. «Escondia-os por tudo quanto era sítio e nós tínhamos que ir à procura deles porque as gatas não se calavam», conta, divertido, o coveiro.

Já para não falar do Nico, que apareceu há cerca de três anos. Licínio Fidalgo, coordenador técnico do Cemitério dos Prazeres, diz que chegava por volta das 10 horas, convivia com os gatos da colónia e ia-se embora por volta das 16.30 horas. Todos os dias.

«Um dia, ia eu para casa, e vejo-o a atravessar uma passadeira na Rua Possidónio da Silva. Segui-o e vi-o saltar para um quintal, que devia ser onde morava», recorda. Entretanto, foi capturado pela CAL e esterilizado. Desde então, vive no cemitério.

Há ainda o Óscar, que apareceu mais ou menos na mesma altura. É um gato siamês, corpulento, ainda mais senhor do seu nariz do que os outros gatos. Ao início, envolveu-se em grandes lutas com os outros elementos da colónia. «Depois, socializou mais», afirma Licínio Fidalgo. Começou a ser acarinhado pelos funcionários administrativos e hoje, passa os dias no escritório, como se fosse o rei e senhor do cemitério.

 

Quase 800 colónias

A colónia de gatos do Cemitério dos Prazeres é uma das quase 800 legalizadas em toda a cidade. Existem nos mais diversos locais: Cemitériologradouros, jardins, ruas sem saída, escolas, cemitérios (além do dos Prazeres, também no do Alto de São João e no da Ajuda) e hospitais (Santa Maria, Capuchos e Estefânia). Algumas têm um ou dois gatos; outras chegam a ter 1300. No total, representam cerca de 6200 felinos esterilizados (reconhecem-se pelo pequeno corte na orelha esquerda).

Cada cuidador assina um acordo de colaboração em programa CED (Captura Esterilização e Devolução) com a CAL. Esse cuidador «é o responsável pela alimentação dos animais e por cuidar da sua saúde», explica ao jornal Os Bichos Ana Machado, médica veterinária da CAL. «Sempre que há gatos doentes, contactam connosco para irmos lá capturá-los e tratarmos deles». O mesmo deve fazer quando aparece um gato novo na colónia, para que seja capturado e esterilizado.

A pessoa responsável pela colónia deve respeitar um conjunto de regras: não fornecer restos de comida; colocar a ração em recipientes facilmente laváveis; fornecer água em abundância e renová-la com regularidade; colocar caixas de dejecções sempre que possível; contruir um abrigo com cobertura total ou parcial quando possível também; e proceder à desparasitação interna dos animais.

Ana Machado refere que «há todo um trabalho de sensibilização» que é feito junto dos cuidadores. «Há pessoas de muita idade que não têm ideia de como alimentar os animais e de como fazer a higienização do espaço», diz.

 

Controlo das populações

CemitérioTodos os dias, chegam novos pedidos para legalização de colónias, mas também reclamações. «Há muita gente contra a esterilização. Que quer é os gatos fora dali, mas isso não é solução», sublinha a médica veterinária, recordando que a actual lei proíbe o abate de animais nos Centros de Recolha Oficiais (CRO) como medida de controlo das populações errantes.

Esse controlo tem vindo a ser feito através do programa CED. Em Lisboa, teve início em 2006, «muito devagarinho no tempo», arrancando em toda a força em 2013. Consiste na captura de gatos vadios, na sua esterilização (caso sejam saudáveis) e devolução ao mesmo local. «Este programa tem várias vantagens, nomeadamente, evita a reprodução, estabiliza a colónia e ajuda a combater pragas, principalmente roedores», explica Ana Machado.

A esterilização tem ainda outra vantagem: «Acaba com muitos comportamentos de acasalamento, os miados das gatas e as lutas dos gatos, de que as pessoas se queixam».

A médica veterinária reforça que não é solução retirar toda uma colónia de um determinado local, como muitas vezes é pedido. «Isso vai criar ali um vazio e vai permitir a entrada de novos gatos, que vão reproduzir-se», afirma.

Um casal de gatos pode ter uma ou duas ninhadas por ano. Ano fim de sete anos, podem produzir, exponencialmente, 420 mil felinos.

1 Comentário
  1. Cristina Carrilho 2 semanas atrás
    Responder

    Desconhecia esse facto.
    Adoro gatos,fico muito contente em saber que apesar de não terem um lar,têm quem se preocupe com eles,os alimente,acarinhe…etc.
    Adorei a história,fiquei encantada e emocionada.

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