Catástrofe

«Foram encontrados animais acorrentados completamente carbonizados»

Dezenas de voluntários e várias clínicas veterinárias estão a prestar assistência aos animais vítimas dos incêndios no Algarve. Veja neste artigo os locais onde pode deixar os seus donativos
Fátima Mariano
Algarve
Algarve
Local onde Robert Camaron Lucia e os seus cinco burros viviam, perto das Caldas de Monchique, ficou completamente destruído

O incêndio em Monchique, Algarve, que deflagrou na passada sexta-feira e já consumiu 21 mil hectares de área, está também a provocar muitas vítimas entre os animais domésticos, de pecuária e silvestres. O número é incalculável e os pedidos de ajuda para bens e alimentos são muitos.

Patrícia Xavier, auxiliar de veterinária no VetMessines – Centro Veterinário de Messines, tem estado nas últimas noites a ajudar os animais resgatados do incêndio de Monchique. «Foram encontrados muitos animais acorrentados completamente carbonizados e outros com queimaduras muito graves», contou ao jornal Os Bichos.

No VetMessines estão a ser tratados aqueles cuja situação é mais preocupante. «Muitas pessoas conseguiram fugir com os seus animais de estimação. Mesmo que aparentemente eles não precisassem de assistência, nós observamo-los todos, um a um», explica Patrícia Xavier.

Além dos animais de estimação (maioritariamente cães e gatos), há também os de produção, como porcos, galinhas e cavalos. «Tratámos dois cavalos que tinham os focinhos queimados», diz. Para esta auxiliar de veterinária, a verdadeira dimensão da tragédia no que diz respeito aos animais só poderá ser devidamente avaliada quando os incêndios foram extintos.

Têm estado a funcionar dois pontos de assistência a animais, no Sítio do Porto de Lagos (Portimão) e na vila de Monchique. Tendo em conta que o incêndio se alastrou ao concelho de Silves, está a ser planeado a abertura de um terceiro nesta zona. Nestes locais estão médicos veterinários, enfermeiros veterinários e auxiliares de veterinária do Algarve, mas também de outras regiões do país.

 

Algarve Fires Animal Group
Algarve
Foto: Pata Ativa Associação

Devido à extensão da área atingida pelos incêndios e do elevado número de animais a necessitarem de ajuda, foi criado no Facebook o Algarve Fires Animal Group. Um grupo ao qual podem aderir todas as pessoas que queiram ajudar no resgate e tratamento de animais afectados pelas chamas

Esta quarta-feira, o incêndio de Silves reacendeu-se e chegou a ameaçar várias casas. Por precaução, o Country Riding Center, a cerca de dois quilómetros do centro da cidade. «A situação está incontrolável. Felizmente, conseguimos colocar todos os nossos animais a salvo», contou, ao jornal Os Bichos, Martina, a dona. Neste centro, estavam 19 cavalos e vários cães e gatos, quer da família, quer de clientes, uma vez que também têm serviço de alojamento. Estão agora noutras quintas no Algarve e no Alentejo.

Também os 29 animais que se encontram no Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI), situado na Herdade das Santinhas, em Silves, foram retirados como medida de prevenção. De acordo com uma nota do Ministério do Ambiente, os linces (uma espécie protegida) foram encaminhados para as instalações de parceiros espanhóis. Os animais estão a ser acompanhados por técnicos do CNRLI e do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas).

Num comunicado divulgado esta quarta-feira, a Ordem dos Médicos Veterinários informou que «a resposta de apoio a animais está controlada». Contudo, continuará «a fazer o levantamento das necessidades no terreno, sendo que alguns dos locais ainda se encontram inacessíveis por razões de segurança».

 

Robert e os seus cinco burros

Robert Camaron Lucia, um alemão de 45 anos radicado no Algarve há cerca de seis, nunca mais esquecerá a noite de segunda-feira. OAlgarve local onde vivia com os seus cinco burros, perto das Calda de Monchique, ardeu por completo e Robert teve que fugir sozinho com os seus animais pela serra.

«Foi assustador. As casas mais próximas já tinham sido evacuadas. Os animais estavam muito assustados e, por vezes, foi difícil mantê-los juntos», conta ao jornal Os Bichos, ainda mal refeito do susto. Os cinco burros de raça Andaluz – Lucia (10 anos), Camaron (9 anos), Josefina (5 anos), Frederico e Luísa (3 anos) – não sofreram ferimentos, mas o projecto de vida de Robert, o Project Santuary Happy Donkeys ficou completamente destruído.

«Só a casa é que ficou em pé. Do resto, não sobrou nada», diz. Robert lançou um pedido de ajuda nas redes sociais e esta começou a aparecer. Os proprietários de uma quinta no Alentejo disponibilizaram-se a acolher os animais temporariamente, mas é preciso muito mais para que este apaixonado por Portugal e por burros conseguida reerguer o seu projecto de vida literalmente das cinzas.

 

O drama dos animais silvestres

Além dos animais de estimação e de produção, também os silvestres têm sido vítimas destes incêndios. Monchique tem um ecossistema «muito característico». «É uma zona muito valiosa em termos de fauna e de flora. Há espécies, sobretudo da flora, que só existem aqui», disse ao jornal Os Bichos Gonçalo Gomes, vice-presidente da Liga Portuguesa para a Protecção da Natureza (LPN).

Entre outras características, Monchique destaca-se por ser um habitat com humidade, mesmo nos meses de verão, o que é algo atípico no Algarve. Aqui, encontram-se espécies tão diversas como salamandras e sapos, martas, toirões, sacarrabos e ginetas, entre outros.

Tendo em conta as imagens que já visionou, Gonçalo Gomes receia que haja perda total de algumas populações. «Do ponto de vista conservacionista, este é um verdadeiro drama», sublinhou. Os animais que eventualmente possa ter conseguido escapar para outros habitats poderão não conseguir adaptar-se. O vice-presidente da LPN tem esperança de que algumas espécies associadas aos planos de água consigam salvar-se. Recorda um incêndio em 2012, durante o qual uma ribeira foi completamente atravessada pelas chamas, mas, alguns dias depois, foram encontradas duas lontras a brincarem.

Gonçalo Gomes aconselha a quem encontrar animais silvestres feridos a contactar de imediato o SEPNA da GNR ou  ICNF. «Eles sabem como capturar os animais e conhecem os locais para onde devem ser encaminhados. Os animais vão estar em grande stress por toda a situação que viveram e poderão mostrar-se agressivos», explica.

Recorde neste artigo os cuidados a ter com os seus animais em caso de catástrofes como esta.

 

Pontos de recolha de bens e alimentos

Estes são alguns dos locais onde pode deixar os seus donativos. Contacte-os previamente para conhecer as reais necessidades:

  • Animal Rescue Monchique
  • ANFS (Associação Nacional dos Alistados das Forças Sanitárias), em Lisboa. Ligar antes para o 917 177 617
  •  Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária no edifício DRAPAL, Patacão (Faro) – monchique@dgav.pt
  • Franjinhas – Associação de Protecção Animal (Portimão) – Rua do Comércio, n.º 4. Horário: 10h-13h – 15h-19h. Sábados, durante as manhãs
  •  Hospital Veterinário de Portimão – aberto 24 horas
  •  Serviços Médico-Veterinários de Portimão – Estrada do Poço Seco
  • VetMessines –  Centro Veterinário de Messines. Horário de funcionamento: 10h-13.30h – 16h-19.30h
9 Comentários
  1. Raquel Oliveira 2 meses atrás
    Responder

    Sem palavras para estes horrores. É triste que a RAÇA HUMANA, seja responsável pelo sofrimento e inferno causado aos animais aqui na terra. Alguem anda a tentar acabar com os sitios mais bonitos em PORTUGAL, e ninguem consegue controlar estes incendiários loucos.

    • Jane 2 meses atrás
      Responder

      o humano é uma espécie, não é uma raça.

  2. Amando 2 meses atrás
    Responder

    É muito dificil de ler em mobile devido ao menu de partilhas a flutuar por cima do texto

    • Os Bichos 2 meses atrás
      Responder

      Caro leitor,

      Muito obrigada pelo seu comentário. Já detectámos esse problema , mas ainda não nos foi possível corrigir. Estamos a tentar ultrapassá-lo e esperamos consegui-lo muito em breve.

      Fátima Mariano
      Directora de Os Bichos – O seu jornal sobre vida animal

  3. Amélia 2 meses atrás
    Responder

    É uma vergonha como Portugal, e a maioria dos portugueses, trata os animais.
    Sabem que eles não são coisas nem lixo??

  4. Safire Hikari 2 meses atrás
    Responder

    O que precisamos mais para ajudar; pessoas, dinheiro, sitios para os animais ficam, pessoas para adoptar, comida?

    Quero ir ajudar!

    Obrigada por tudo que fizeram!

  5. Os Bichos 2 meses atrás
    Responder

    Boa noite, Safire,

    Pode contactar as instituições que estão no final do artigo e perguntar que tipo de ajudar precisam. No texto, deixámos também a ligação de um grupo do Facebook que está a gerir o trabalho de voluntários.

    Obrigada,
    Fátima Mariano
    Directora de Os Bichos – O seu jornal sobre vida animal

  6. Marina Picanço Afonso de Brito 2 meses atrás
    Responder

    Boa noite, em Faro há algum sitio onde possa doar ração ou outras necessidades?
    obrigada

  7. Os Bichos 2 meses atrás
    Responder

    Boa tarde,

    Em Faro, o nosso jornal teve apenas conhecimento de que estarão a ser recolhidos bens e alimentos no edifício da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, como pode ver na lista que publicámos. O contacto disponibilizado é: Monchique@dgav.pt

    Obrigada,
    Fátima Mariano
    Directora de Os Bichos – O seu jornal sobre vida animal

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