Gatos de interior e gatos de exterior: benefícios e riscos

Mariana Sousa
Gatos

Gato

Ser tutor de um animal – seja gato, cão ou coelho – é um dos grandes prazeres que uma pessoa pode ter, mas quando adotamos um, sobretudo um gato, temos que ter em conta que estilo de vida lhe vamos oferecer.  Basicamente, temos três tipos: vida de interior, interior com acesso ao exterior e exterior. A decisão da escolha também depende das condições de vida do próprio tutor. Viver num apartamento normalmente implica quase exclusivamente um estilo de vida de interior enquanto uma vivenda poderá oferecer mais alternativas para o gato. Dependendo de qual escolhemos, poderemos ter determinados riscos e benefícios que são importantes ter sempre em conta.

A vida de exterior ou de interior com acesso ao exterior sem controlo promove um melhor estado mental do gato, permitindo-o exercitar um comportamento felino mais completo e facilitar uma atividade física mais adequada com uma grande variedade de estímulos. No entanto, implica um maior número de riscos e uma esperança de vida mais curta, devido aos riscos de acidentes e de doenças infectocontagiosas. Não só temos o óbvio perigo de atropelamento e de se perderem, mas também existe o elevado risco de envenenamento por consumo de plantas tóxicas, venenos, alimentos estragados e de lixo.

O roubo e o maltrato também são perigos importantes. Infelizmente, existem inúmeros casos de mortes por ação de pessoas maliciosas, com sãos os casos do assassino de Croydon ou do “mata-gatos de Toledo”. O risco de contágio de uma grande variedade de doenças, como leucemia felina, sida felina, peritonite infeciosa felina, toxoplasmose, micoplasmose, é bastante elevado, assim como um maior contacto com os parasitas.

Podem também ser atacados por outros animais, como cães, raposas e sacarrabos, e sofrerem ferimentos com as lutas entre gatos. Apesar do impacto que o comportamento natural de caça possa ter na fauna local, pode também podem provocar alguns inconvenientes com os vizinhos. Os dois únicos verdadeiros benefícios do estilo de vida exterior são a possibilidade de o gato poder expressar um comportamento natural completo e adequado tendo acesso a uma grande variedade de estímulos e manter uma atividade física adequada.

Uma vida de interior, embora ofereça mais proteção, não está totalmente isenta de riscos. O gato é um predador natural e não só necessita de bastante atividade física como também de ser frequentemente estimulado. Assim, um dos principais problemas que encontramos em gatos de interior é o aborrecimento, que poderá implicar sérios problemas de saúde mental e física. Neste estilo de vida, todo o estímulo depende do tutor, pelo que se este não oferece um ambiente rico e estimulante poderemos ter um gato frustrado e aborrecido, incapaz de expressar comportamentos naturais e com grandes níveis de stress.

Eventualmente, poderá adquirir com o tempo comportamentos destrutivos e problemas de saúde. Podem tornar-se super-reativos a mudanças dentro do seu território e serem incapazes de lidar com as novidades, sejam pessoas, objetos ou novos cheiros. A falta de exercício e o aborrecimento, que poderá induzir a comer demais, vão facilitar o aparecimento da obesidade, que aumenta o risco de diabetes, cancro, doenças cardíacas e problemas osteoarticulares.

Janelas e portas abertas podem ser não só uma fonte de acidentes, mas também uma via de fuga para um ambiente ao qual eles perderam a capacidade de adaptação. Gatos que tenham acesso a varandas ou janelas desprotegidas podem sofrer quedas das quais poderão resultar inúmeras lesões com fracturas, luxações traumáticas, pneumotórax, rotura da bexiga, hipotermia e choque. E quanto mais jovem é o gato, maior a probabilidade de cair.

O consumo de produtos tóxicos não está só limitado aos gatos com acesso ao exterior. Plantas ornamentais, como lírios, são altamente tóxicas e um gato aborrecido poderá tentar prová-las, podendo induzir a uma insuficiência renal aguda. Detergentes, medicamentos e pesticidas também podem ser uma fonte de intoxicação no interior das casas.

Mas se se cria um ambiente enriquecido e uma grande variedade de estímulos, temos um gato feliz, com um estilo de vida considerado mais seguro e com uma das melhores esperanças de vida. E se por ventura se consegue que o gato tenha acesso ao exterior de forma controlada e segura, como por exemplo com passeios à trela ou “catpatios”, temos o melhor dos dois mundos.

 

No quarto sábado de cada mês, um/a médico/a veterinário/a das clínicas Vilavet e Tavivet escreve no nosso jornal. A dra. Mariana Sousa é Licenciada em Medicina Veterinária pela Faculdade Veterinária de Cáceres, Universidade de Extremadura, Espanha. Tem como principais áreas de interesse a medicina felina e os animais exóticos. 

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.