Ucrânia

Os cães vadios de Chernobil

Na zona de exclusão vivem quase mil cães vadios, 250 dos quais na própria central nuclear. Voluntários estão a recuperá-los e a promover campanhas de adopção
Fátima Mariano
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Cão
Este ano, o Fundo Clean Futures foi autorizado a promover adopções (Fotos: Direitos Reservados)
Gato
Os gatos existem em menor número por não aguentarem tão bem o inverno rigoroso (foto: Direitos Reservados)
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Os cães são esterilizados, vacinados e desparasitados por médicos-veterinários voluntários (foto: Direitos Reservados)
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Voluntária da Sociedade Internacional para a Prevenção da Crueldade contra Animais (foto: Direitos Reservados)
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Michelle Clancy, uma das voluntários, a brincar com cachorros de Chernobil (foto: Direitos Reservados)
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Há indícios de cruzamento entre os cães e os lobos de Chernobil (foto: Direitos Reservados)
Central nuclear
Acidente na central nuclear de Chernobil ocorreu no dia 26 de Abril de 1986 (foto: Direitos Reservados)

Na zona de exclusão à volta da central nuclear de Chernobil, no norte da Ucrânia, criada após o acidente de 1986, vivem entre 900 a mil cães vadios, que sobrevivem em condições muito difíceis. São descendentes dos animais deixados para trás pelas populações das cidades evacuadas quando a central explodiu e que foram obrigadas a deixar tudo para trás, incluindo os seus cães e gatos.

Desses quase mil cães, cerca de 250 vivem na própria central nuclear. Têm vindo a ser alimentados pelas 3500 pessoas que ali trabalham diariamente e que os abrigam durante o inverno gelado, mas esse apoio não é suficiente. “Estes trabalhadores tomam conta dos cães o melhor que podem”, sublinha, em entrevista por e-mail ao jornal Os Bichos, Lucas Hixson, co-fundador do Fundo Clean Futures, uma associação americana criada em 2016 que apoia populações atingidas por acidentes industriais.

Quando, em 2013, Lucas e Erik Kambarian (o outro co-fundador) entraram na central nuclear de Chernobil, ficaram chocados com ao tomarem contacto com os cães que ali vivem. Eram animais malnutridos, expostos à raiva pelos predadores e a precisarem de cuidados médico-veterinários urgentes. Muitos cães tentavam procurar comida nos bosques em redor, mas eram expulsos pelas alcateias, embora haja evidências de que estejam a acasalar com os lobos.

Juntamente com a Sociedade Internacional para a Prevenção da Crueldade contra Animais (SPCAI, sigla em inglês), em 2017 teve início um programa quinquenal para recuperar e cuidar destes cães e gatos. “Nós esterilizamos, vacinamos, resgatamos e adoptamos este animais abandonados para lhes dar o melhor futuro possível”, explica Lucas Hixson.

 

Campanha de adopção

No dia 26 de Abril de 1986, um problema técnico no reactor n.º 4 da central nuclear de Chernobil provocou a libertação de uma nuvem radioactiva. Na sequência o acidente, as autoridades da então União Soviética (à qual Chernobil pertencia) estabeleceram uma área de exclusão de cerca de 30 quilómetros em volta daquela unidade industrial. Quase 190 cidades, nas quais viviam mais de 120 mil pessoas, foram evacuadas.

Após o acidente, soldados do exército soviético foram enviados para a cidade de Prípiat com o objectivo de matar todos os animais deixados para trás, por terem sido contaminados pela radiação nuclear e devido ao risco de saírem da zona de exclusão. No entanto, foi impossível abatê-los a todos. Os cães e gatos que hoje ainda ali se encontram são seus descendentes.

Lucas Hixson descreve estes cães como sendo “muito espertos e saudáveis e a precisar de amor”. Este ano, o Fundo Clean Futures e a SPCAI foram autorizados a promoverem campanhas de adopção, mas apenas de cães até um ano de idade. Neste momento, há 15 cachorros para adopção. Não estão contaminados, estão castrados, vacinados e desparasitados. Antes de irem para os seus novos lares, na Ucrânia ou em qualquer outra parte do mundo, terão um período mínimo de 30 dias de quarentena.

 

Voluntários precisam-se em Chernobil

Quanto aos gatos, o mesmo responsável refere que “não há tantos como os cães na zona de exclusão”, uma vez que os felinos são mais facilmente caçados pelos predadores que vivem na região (como os lobos e os ursos) e não suportam tão bem os rigorosos invernos de Chernobil.

O trabalho que o Fundo Clean Futures e a SPCAI estão a desenvolver com os cães de Chenobil é totalmente garantido por voluntários de várias nacionalidades. Desde o início do programa, em Setembro, está a decorrer uma campanha de recolha de donativos em dinheiro ou bens e um apelo a que mais voluntários de juntem ao projecto.

Na zona de exclusão, foram montadas três clínicas médico-veterinárias, uma das quais no interior da central nuclear.

 

1 Comentário
  1. Tânia Alves 4 meses atrás
    Responder

    Olá!
    Eu já conhecia esta história porque o projecto NOVARKA a decorrer em Chernobyl conta com a presença de trabalhadores portugueses e um deles é o meu pai. Ora, esta intervenção desta ONG, embora eu não tenha dúvidas que é bem intencionada, foi, pelo menos, muito atabalhoada. Muitos destes cães estavam a ser cuidados por trabalhadores portugueses, com abrigo, comida e muito muito carinho. Tenho muitas fotografias e vídeos disso que o demonstram. Seguramente, no final da estadia desses trabalhadores naquele projecto, esses cães seriam levados pelos seus cuidadores. A intervenção da ONG foi tão abrupta que, sem qualquer comunicação, os cães foram levados dos locais onde esses trabalhadores os deixaram, sem qualquer palavra. Aliás, correram emails e imensas conversas entre os trabalhadores acerca do «roubo» dos cães, porque ninguém sabia o que lhes tinham acontecido. Não é uma forma correcta de actuar e gerou mal estar entre os trabalhadores (portugueses, ucranianos, franceses, etc), que, na verdade, tinham laços afectivos com os «seus» cães. Talvez seja interessante a jornalista que assina esta peça conhecer esse lado da história.

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