Espectáculo

Animais saltimbancos: andar de terra em terra a animar o povo

Nas Jornadas Medievais do Douro, que se realizaram no passado fim-de-semana na vila de Canelas, os bichos também foram protagonistas
Fátima Mariano
Cão

cobra
Jormungand tem três metros de comprimento e é uma pitão tapete (foto: Fátima Mariano)
Cobra
Os movimentos naturais nunca devem ser contrariados para não causar stress à cobra (foto: Fátima Mariano)
cobra
Bruno coloca uma toalha nas caixas transportadoras para os animais não sentirem a vibração do carro (foto: Fátima Mariano)
Cão
Miguel Carvalho, Batata, Chico e Rita Melo nas Jornadas Medievais do Douro (Foto: Fátima Mariano)
Cão
Batata tem três meses e é uma das filhas do Chico. Já aprendeu alguns truques (foto: Fátima Mariano)
Cão
Miguel Carvalho e Rita Melo fundaram o grupo Impostoritos o ano passado (foto: Fátima Mariano)
cão
O Chico tem quatro anos de idade e adora os mimos dos donos (foto: Fátima Mariano) 
Pónei
O Dragão tem 11 anos de idade  e está com a família Aires há cerca de oito anos (foto: Fátima Mariano)
cavalo
Além do Loirinho e do Brilhante, a família Aires tem ainda a égua Luna (foto: Fátima Mariano)

Chama-se Jormungand, como o filho do deus Loki da mitologia nórdica, e não deixou ninguém indiferente quando passeava ao pescoço de Bruno Miguel Resende pelo recinto das Jornadas Medievais do Douro, que se realizaram no passado fim-de-semana em Canelas (concelho do Peso da Régua). O seu tamanho mete respeito: tem três metros de comprimento e pesa cerca de 4,5 quilos.

«Quando está muito stressado, aperta-me um bocadinho o pescoço. Nessas alturas, respiro fundo e ele acaba por acalmar e soltar-se», conta ao jornal Os Bichos Bruno Miguel Resende, 37 anos de idade, que há cerca de dois anos fundou com Xavier Miguel o grupo Os Arlotes, no Porto, e andam de terra em terra com espectáculos de fogo, de animação de rua e com animais exóticos. Participam não só em eventos como as Jornadas Medievais do Douro, mas vão também a escolas. «Os miúdos aproximam-se logo e querem muito tocar nos animais», afirma.

Os animais exóticos são uma das grandes paixões de Bruno Miguel Resende. Além de Jormungand, uma pitão tapete (Morelia spilota), tem ainda a Ofídio, uma rainha do deserto (Lampropeltis getula splendida), a Pitónio, uma pitão-real (Python regius), a Hidra, uma jibóia de Madagascar (Boa dumerili) e a Laranjino, uma cobra-do-milho (Pantherophis). A estas juntam-se ainda o Ferrolho, um escorpião imperador negro (Heterometrus longimanus), e a Tarantela, uma tarântula (Brachypelma hamorii). Dormem todos no quarto de Bruno, cada um no seu terrário, com as condições adaptadas a cada espécie.

Para as Jornadas Medievais do Douro vieram apenas o Jormungand, a Ofídio e a Pitónio. «Vieram numa caixa transportadora em madeira, com uma tampa em plástico transparente. Para não sentirem tanto a vibração do carro, coloco-lhes uma toalha por baixo», explica Bruno Miguel Resende. «No tempo frio, coloco-lhes um tapete de aquecimento; quando está calor, borrifo-as», acrescenta.

Bruno já foi mordido diversas vezes. «A técnica é deixá-las morder até elas quererem, porque se retiro a mão, o mais certo é magoarem-se nas gengivas», alerta. «Nunca devemos contrariar o seu movimento natural para não causar stress. Os movimentos que faço durante os espectáculos são muito conduzidos por elas», diz.

Todos os dias, Bruno interage com ela, para que se habituem ao seu cheiro e ao seu toque. Quando trabalha com outras pessoas, como foi este o caso, há um pequeno treino antes do evento para que se adaptem umas às outras, mas só ele é que trabalha com o Jormungand.

Às vezes, os imprevistos acontecem. O ano passado, durante um evento em Serpa, Bruno deixou Jormungand no quarto. Só que não se apercebeu que a porta não tinha tranca e quando chegou a cobra estava «feliz da vida» em cima de uma árvore, a cinco metros de altura.

 

O Chico e a Batata

Quem também não passou despercebido foi o Chico e a Batata, pai e filha. São dois cães de raça border collie com quatro anos de idade e três meses de idade respectivamente. Juntamente com os donos, Rita Melo e Miguel Carvalho, formam o grupo os Impostoritos, que nasceu há cerca de um ano e animal diversos eventos, principalmente durante o verão.

Rita, que é natural de Águeda, e Miguel, nascido em Beja, conheceram-se há cerca de seis anos na companhia de teatro Viv’Arte – Laboratório Nacional de Recriação Histórica, sedeada em Oliveira do Bairro. Aqui, Miguel trabalhava com cavalos e aves de rapina, sobre as quais aprendeu muito com falcoeiros. Depois de deixarem a Viv’Arte, decidiram aventurarem-se sozinhos.

O Chico chegou à família com quatro meses de idade. «Fomos buscá-lo a uma quinta no Alentejo. Vinha maltrato, magrinho. Não convivia muito com pessoas, os outros cães da quinta não o deixavam comer e ele vinha muito traumatizado», recorda Miguel. Com o passar do tempo e os mimos dos novos donos, foi ganhando confiança, «mas ainda tem medo de foguetes e de balões», acrescenta Rita.

Quando foram buscar o Chico, não foi com o intuito de o integrarem nos seus espectáculos. Contudo, sendo de uma raça que «aprende com muita facilidade» e que precisa de gastar energia, Miguel foi-lhe ensinando alguns truques.

Há três meses, nasceu a Batata, uma das quatro crias do Chico. «Ela é mais espevitada do que o pai. O objectivo é que ela vá aprendendo os truques com ele e que o ajude a perder alguns medos», explica Miguel Carvalho.

Os dois têm personalidades diferentes. «Ela é mais confiante e dorme em qualquer lado. O Chico é mais esquisito. Quando está fora de casa, dorme pior e come menos», diz Rita. Em contrapartida, quando está em casa «é só mimo» e quando anda na rua «é só brincadeira», acrescenta Miguel.

 

Passeios a cavalo

Afonso Aires, natural de Armamar, nasceu rodeado de cavalos machos, que ajudavam o pai nos trabalhos do campo. Por isso, para ele, estes animais não têm segredos. Actualmente, tem um pónei, o Dragão, com 11 anos de idade, dois cavalos de raça percheron, o Loirinho e o Brilhante, com quatro e cinco anos de idade, respectivamente, e uma égua, a Luna, de apenas dois anos de idade, e que não participou nas Jornadas Medievais do Douro.

Ao jornal Os Bichos, Afonso Aires conta que é fácil ensinar estes animais a executarem pequenos truques, como darem a pata, quando lhes é pedido. Nas Jornadas Medievais do Douro, foram utilizados para pequenos passeios com as crianças e os dois cavalos transportaram duas das personagens principais do desfile histórico, que se realizou no domingo. Mas Afonso Aires, com a ajuda da mulher, Maria Goreti Nóbrega e a filha, Marlene Ferreira, realiza também passeios com charrete na Régua, transporta noivas no dia do seu casamento e andores em procissões.

«Há pessoas que gostam de ver os animais nestas actividades e outras que não gostam. Dizem-me que estou a explorá-los, mas tomara muita gente ser tratada como eles», afirma. Todos os dias, os quatro animais comem 400 quilos de feno e bebem 120 litros de água. «Eles são transportados num camião com 12 metros de comprimento, com rampa eléctrica e janelas», explica, dizendo que independentemente do local onde estejam (a família Aires trabalha exclusivamente na região do Douro), vão dormir sempre a casa para os animais tomarem banho e serem escovados.

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