O imprinting e a vinculação (Parte I)

Luís Vicente
Ganso

Imprinting

Entre 1872 e 1875, Douglas Alexander Spalding publicou seis artigos científicos nos quais descrevia pela primeira vez uma reacção de perseguição dos pintos recém-nascidos às galinhas que chocavam os ovos de onde eles eclodiam.

Em 1910, Oscar Heinroth identificou o mesmo fenómeno noutras aves, denominando-o prägung (que significa impressão ou estampagem com carimbo ou impressora de prensa tipo Gutenberg).

Em 1935, Konrad Lorenz formulou a hipótese de existência de um tipo muito específico de comportamento em aves, que denominou imprinting e considerou derivado de determinadas experiências precoces.

Os animais endotérmicos (vulgo, «de sangue quente») protegem e/ou alimentam os seus embriões, ou fora do corpo num ovo, ou dentro deles próprios num útero.

Os seres que nascem aproximam-se de «versões miniaturizadas» dos adultos, embora haja uma grande variação no seu grau de desenvolvimento.

Uns animais são altriciais (nidícolas), o que significa que nascem cegos e indefesos, sem pêlos ou penas; outros são precociais (nidífugas) e nascem bem constituídos, de olhos abertos, com os sentidos desenvolvidos e capazes de tratarem deles próprios pouco após o nascimento.

Os gansos são aves precociais. Em condições experimentais, um jovem ganso seguirá um primeiro estímulo móvel que lhe seja apresentado após a eclosão. Diz-se que houve um processo de imprinting, que se estabeleceu uma ligação precoce, unívoca, do animal ao estímulo móvel.

O termo imprinting refere-se assim ao processo (ou processos) pelo qual as preferências sociais são definidas em resultado da experiência. Diz-se que a jovem ave é impregnada (filialmente) pelo objecto que primeiro despoletou uma resposta de perseguição.

Lorenz observou que se uma ave era criada por uma falsa mãe de outra espécie com a qual tinha estabelecido uma ligação precoce de imprinting, ou mesmo por um ser humano, a ave tornava-se socialmente ligada à falsa mãe e, atingida a maturidade sexual, cortejaria indivíduos da espécie da falsa mãe de preferência aos da sua própria espécie.

Isto levou Lorenz a afirmar em 1935, num artigo basilar para a história da Etologia, que nalgumas aves a preferência por um parceiro sexual resultaria de um processo de aprendizagem precoce.

É uma das grandes descobertas de Lorenz que levou a que fosse galardoado em 1973 com o Nobel de Fisiologia ou Medicina. Sugeriu ainda que este processo, uma vez estabelecido, seria irreversível, enfatizando a diferença entre imprinting e a aprendizagem associativa convencional e descobrindo também o imprinting sexual.

Portanto, pelo menos dois tipos de imprinting podem ser formalizados.

1. Um diz respeito à aquisição precoce de preferências e é evidenciado pela resposta de perseguição da mãe ou de um objecto-substituto, imprinting filial;

2. o outro tem a ver com a aquisição precoce de preferências que serão evidenciadas na altura do acasalamento, imprinting sexual.

(A Parte II deste artigo pode ser lida aqui)

 

Luís Vicente é investigador do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. É biólogo, doutorado em Evolução e professor de Comportamento Animal e de Neurobiologia. Escreve no segundo sábado de cada mês. 

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