Lisboa

Taxidermia ou a arte de «dar vida» aos animais mortos

Serviço de taxidermia do Museu Nacional de História Natural e da Ciência é responsável pela preparação de espécimes animais para integrarem exposições ou colecções científicas
Fátima Mariano
Taxidermia
1
Bufo-real
ave
peixe
peixe
moa gigante
baleia

(Fotos: Diana Quintela)

A sala onde Ana Campos e Pedro Andrade trabalham está, literalmente, cheia de bichos. Desde um bufo-real, a uma raposa, répteis, estrelas-do-mar, peixes de diversas espécies e até uma ave pré-histórica, que no cimo de uma das mesas olha com um ar meio agressivo enquanto espera que alguém a termine de «vestir».

Pedro Andrade e Ana Campos são os dois taxidermistas do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), em Lisboa. São eles quem dão forma à pele do cadáver dos animais, através da técnica da naturalização, para que estes possam depois ser exibidos em exposições ou para integrarem colecções científicas, como as que existem no MUHNAC.

Antigamente, usava-se barro ou palha (por isso, falava-se em empalhamento) para montar os animais, explica Ana Campos, enquanto aponta para o interior da boca de um javali, onde se podem ver vestígios de palha. Só que com o tempo, o material, muito sensível à humidade, acaba por deteriorar-se e estragar a espécie taxidermizada. Mesmo os exemplares naturalizados têm que permanecer «numa sala com a humidade, a temperatura e a luz controladas», explica Pedro Andrade, o único taxidermista dos quadros dos museus portugueses. Caso contrário, acabam por se danificar.

Hoje, os taxidermistas utilizam outros métodos. A pele do animal é retirada do corpo juntamente com as penas ou o pêlo. No caso das aves, a pele é lavada com água e detergente e depois seca com um secador próprio. A pele dos mamíferos é curtida e passada por vários tratamentos químicos.

Entretanto, «é feito um manequim em poliuretano com as medidas do corpo real, que será depois vestido com a pele do animal», explica o responsável pelo serviço de taxidermia do MUHNAC. Em seguida, a pele é cosida e penteada. Os bicos, as patas e os cascos são os do cadáver, mas a língua e os olhos não. Os olhos artificiais, por exemplo, são comprados na Alemanha e pintados pelos dois taxidermistas, de acordo com o espécime no qual vão ser colocados. Um trabalho muito minucioso e que requer conhecimentos profundos sobre as várias espécies, que Pedro Andrade e Ana Campos adquiriram nos cursos de Biologia. Os modelos são de tal forma realistas que parece que o animal está vivo.

 

Animais extintos

No caso dos répteis, cetáceos, batráquios, peixes e outros, as técnicas são diferentes. Em cima de uma das bancadas de trabalho, encontramos alguns batráquios à espera de que alguém acabe de os pintar. Não se tratam de espécimes naturalizadas, mas sim modelos dermoplásticos, uma técnica que consiste em copiar a anatomia do próprio animal através do gesso. O modelo é depois pintado para ficar com um aspecto real.

Os taxidermistas fazem também montagens osteológicas, ou seja, montagem de esqueletos de animais e modelos científicos de espécies já extintas, como o da moa gigante, que pode ser visto na exposição SPECERE, patente no MUNHAC até Dezembro de 2023. A moa é a maior ave que jamais existiu à fase da terra. Era originária da Nova Zelândia e «desapareceu há cerca de 500 anos por culpa do homem», explica Pedro Andrade.

Cabe também ao serviço de taxidermia fazer os dioramas, ou seja, a reconstituição artificial dos habitats naturais das espécies taxidermizadas, como o que se pode ver na exposição SPECERE. Aqui, pode observar-se, por exemplo, Kenturo, um lince-ibérico (Lynx pardinus) que tinha sido libertado em Espanha e foi mortalmente atropelado no Porto. Ou uma lebre encontrada morta no Alentejo. «Desde que os cadáveres estejam bem conservados podem ser taxidermizados vários anos depois», refere o responsável pelo serviço de taxidermia do MUHNAC.

 

A baleia-anã de 10 metros de comprimento

Mas há animais que pelo seu porte não cabem na sala, como é o caso de uma baleia-anã (Balaenoptera acutorostrata) que em Setembro de 2017 apareceu morta ao largo da costa do concelho de Alcobaça. O animal, um adulto com cerca de 10 metros de comprimento, chegou em Outubro às mãos dos dois taxidermistas e a solução foi colocá-la numa zona resguardada do espaço exterior do MUHNAC.

«O cadáver estava num avançado estado de putrefacção, cheio de larvas», recorda Ana Campos. Foram necessárias cerca de três semanas para retirar todas as larvas e a carne dos ossos, uma tarefa muito difícil no caso dos cetáceos, sublinha Pedro Andrade. Cerca de oito meses depois, ainda há muita gordura a escorrer dos ossos, que já foram todos devidamente enumerados.

Dentro de pouco tempo, o esqueleto irá para uma piscina de plástico comprada para o efeito, na qual ficará a macerar durante vários meses apenas em água, o suficiente para que os ossos fiquem completamente limpos de quaisquer restos de carne e de gordura. Depois, serão restaurados alguns ossos que se danificaram durante o corte e o transporte do cadáver (os ossos da baleia são esponjosos e, por isso, facilmente se quebram) e o esqueleto será montado e exposto finalmente ao público.

Deixe o seu comentário

Your email address will not be published.