Conservação

No MUHNAC «vivem» milhares de animais taxidermizados que precisam de cuidados continuados

As várias colecções do Museu Nacional de História Natural e da Ciência totalizam cerca de dois milhões de espécimes e objectos. Fomos conhecer o Laboratório de Conservação de Colecções Científicas
Fátima Mariano
Sagui
Águia
Densímetro
crânio
Desenho
Fotografia
9

(Fotos: Diana Quintela)

Devidamente equipada com luvas descartáveis e uma máscara a proteger-lhe a boca, Laura Moura limpa cuidadosamente o crânio de um mamífero com a ajuda de um cotonete e água destilada. Aos poucos, o osso, antes escurecido de tanta sujidade que tinha, começa a apresentar a sua cor natural. A peça que Laura Moura está a higienizar foi resgatada recentemente da Escola Oficina N.º 1 da Graça, em Lisboa, cujo edifício vai ser remodelado e cujo espólio foi integrado na colecção do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC).

Ao seu lado, Catarina Teixeira utiliza o densímetro para medir a concentração de etanol nos frascos de vidro de boca larga onde estão preservados alguns exemplares de peixes. Pouco depois, ocupa-se da higienização de um saguim (Callithrix) naturalizado, com a ajuda de uma pequena trincha e um mini-aspirador, que vai sugando o pó que se solta.

Estamos no laboratório de conservação das colecções do MUHNAC. Laura Moura e Catarina Teixeira são conservadoras-restauradoras. Com elas trabalha ainda Catarina Mateus, uma conservadora-restauradora especialista em fotografia, e Catarina Gonçalves, que apoia o serviço de conservação às exposições do MUHNAC.

Há ainda que contar com os mais de 10 voluntários que desde 2006 colaboram no inventário e conservação. «Alguns são antigos professores. Outros, jovens estudantes de mestrado e de doutoramento», explica Catarina Teixeira, coordenadora do Laboratório de Conservação de Colecções Científicas, acrescentando que o MUHNAC recebe também por ano dezenas de estagiários de várias nacionalidades, ao abrigo de diferentes protocolos.

 

Mais de dois milhões de peças

As várias colecções do museu e do Instituto de Investigação Científica e Tropical (um antigo laboratório do Estado) totalizam cerca de dois milhões espécimes e objectos da mais variada natureza. Na sala da reserva visitável, um espaço aberto ao público com alguma regularidade que sofreu obras de restauro entre 2007 e 2011, Catarina Mateus mostra-nos fotografias antigas, a preto e branco, que preservam a memória do que era este e outros espaços do edifício da antiga Escola Polítécnica antes do incêndio que em 1978 afectou as instalações. «Grande parte das colecções zoológicas perderam-se nesse incêndio», diz.

Em seguida, mostra-nos alguns livros e incunábulos do século XV e códices com ilustrações científicas de expedições realizadas entre os séculos XVIII e XX. São cerca de 3000 desenhos que representam animais, mas também flores, frutos, paisagens, vestuário, entre outros aspectos de várias expedições realizadas em África, mas principalmente no Brasil.

Cada colecção de fotografias e de desenhos, assim como os livros e incunábulos, estão devidamente acondicionados em caixas de cartolina feitas pelas técnicas. «Desta forma, pudemos construir as caixas com o tamanho adequado a cada uma das colecções. Nem grande, nem à justa», explica Catarina Mateus. Por vezes, basta um pequeno truque para conservar uma ou várias peças. «Muitas das fotografias que tínhamos estavam encurvadas. Bastou colocá-las numa caixa com o tamanho certo para elas retomarem a sua posição natural», acrescenta.

Há situações em que o serviço de conservação trabalha em colaboração com o de taxidermia, como foi no caso da fêmea de rinoceronte-preto (Diceros bicornis) que recebe os visitantes no átrio da entrada principal do MUHNAC. Trata-se de um exemplar naturalizado, herdado do Instituto de Investigação Científica e Tropical, ao qual foram retirados os dois chifres devido ao facto de ter uma grande exposição pública. O motivo, explica Catarina Teixeira, foi evitar que aqueles fossem furtados, possibilidade não tão pouco remota tendo em conta o preço no mercado negro.

(Notícia corrigida às 10.10 horas do dia 9 de Julho de 2018)

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