Livro

“Com os cães aprendi a ver sempre o lado positivo da vida”

Fotógrafa australiana premiada lança “Perfect Imperfection”, um livro com imagens de cães portadores de deficiências físicas. Alex Cearns já fotografou cerca de 10 mil animais
Fátima Mariano
Cão
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Alex Cearns

Há cerca de 10 anos que Alex Cearns, uma australiana de 44 anos de idade, se dedica a fotografar animais. O que começou por ser um passatempo de fim-de-semana, depressa se tornou num negócio. Tem um estúdio, o Houndstooth Studio, em Perth, na Austrália, mas fotografa animais em todo o mundo. Já recebeu vários prémios e publicou cinco livros. Em entrevista por escrito ao jornal Os Bichos, Alex Cearns fala do seu novo livro, Perfect Imperfection (Imperfeição Perfeita, em tradução livre), do seu trabalho enquanto fotógrafa de animais e do apoio que dá a diversas associações de resgate de animais.

 

É fotógrafa de animais há cerca de 10 anos. Como é que tudo começou?

O meu amor pelos animais começou na infância. O meu pai era tosquiador de ovelhas. Sendo filha única, os meus companheiros foram os cães, os porquinhos da Índia, os cavalos, os coelhos e os cordeiros que eu alimentava a biberão. Também ajudava a minha mãe a tratar de animais selvagens feridos, que depois eram devolvidos à natureza. Trabalhei durante 14 anos como oficial da Polícia e analista de crimes e durante cerca de cinco anos, no Governo Federal. A fotografia começou a tornar-se uma paixão séria em 2006. Comecei a estudar fotografia e a praticar com os meus animais de estimação. Entretanto, transformei um pequeno escritório lá de casa num estúdio fotográfico e comecei a ter encomendas para fotografar animais de estimação. O que começou por ser um passatempo depressa de tornou num negócio e vi-me a trabalhar cerca de 100 horas por semana nos dois trabalhos. Acabei por deixar o meu emprego no Governo.

 

Alia o seu negócio com trabalho pro bono que faz para diversas associações.

Trabalho pro bono para dezenas de santuários animais, abrigos e associações de resgate de animais de diversas partes do mundo. Ofereço-lhes fotografias, patrocínios e promovo acções de angariação de verbas. Saber que a minha ajuda pode fazer a diferença na vida dos animais é uma grande motivação para mim. Um dos meus principais objectivos é continuar a promover e a apoiar organizações que lutam pela preservação ou resgate de animais, sejam eles cães, ursos ou tigres. Há muitas espécies que precisam de ser protegidas e muitas organizações que precisam de ser ajudadas.

 

Para o seu mais recente livro, Perfect Imperfection, escolheu fotografar cães que têm algum tipo de deficiência física. Normalmente, são aqueles que ninguém quer. Porque os escolheu?

Os meus animais preferidos são os cães e um dos meus maiores objectivos, como fotógrafa de animais, é capturar as subtilezas que tornam os cães preciosos e únicos. Gosto de todos os animais que tenho o privilégio de fotografar, mas aqueles que são considerados “diferentes” ocupam um lugar especial no meu coração. São aqueles que perderam uma perna, nasceram sem um olho ou que exibem cicatrizes de um abuso passado. A tenacidade dos cães para superarem a adversidade nunca deixa de me surpreender. Eles tiram o maior proveito da vida e com eles aprendi a ver sempre o lado positivo da vida.

 

É essa mensagem que pretende passar?

Com os cães do Perfect Imperfection, pretendo primeiro que sobressaia a sua beleza e só depois a sua deficiência. Muitas vezes, quem olha, tem que o fazer duas vezes, para ver se aquele cão não tem mesmo uma pata, se é um piscar de olho ou se o cão não tem mesmo um olho. Os cães que fotografo não deixam de me surpreender. Mesmo aqueles que foram agredidos pelos humanos, entram no estúdio e confiam em mim, embora eu seja uma estranha. Aquilo que mais aprendi com estes lindos cães é que eles vivem no momento. Eles são cuidados por pessoas que os amam e estas pessoas são tão especiais como os seus cães. Recusam-se desistir deles e dão-lhes tudo o que eles precisam. Há oito anos, desde que fotografei o meu primeiro cão imperfeito, que queria publicar este livro. É um sonho tornado realidade o partilhar a história destes cães inspiradores.

 

Qual é a maior dificuldade quando se fotografa um animal, uma vez que eles não ficam quietos, como queremos.

Os animais podem ficar nervosos perante estranhos. Primeiro, tento estabelecer uma relação de amizade com eles. Com os cães é relativamente fácil. Se lhes oferecer brinquedos e guloseimas, eles pensam que sou a melhor pessoa que já conheceram. Depois, é deixá-los fazerem o que quiserem. Se lhes pedir para se sentarem e eles não o fizerem, deixo-os ficar. Se se quiserem deitar, nunca os puxo ou os forço a ficar numa posição. Acho que é a melhor forma de obter fotografias de animais felizes e relaxados. Os gatos são o oposto. Geralmente, ficam mal dispostos por serem acordados ou terem que andar na transportadora, mas tendem a ficar quietos ou a brincar com um brinquedo ou outro quando chegam. Com outros, acho fácil de trabalhar, desde ratos a furões, cavalos, pássaros, animais de quinta e répteis. Normalmente, cooperam comigo.

 

De todos os animais que já fotografou, algum a marcou mais?

Não consigo escolher um animal ou uma situação nestes 10 anos como fotógrafa. Já fotografei mais de 10 mil animais no meu estúdio e cada um é único e memorável à sua maneira. Cada animal tem alguma coisa pela qual acabo por me apaixonar. É um grande privilégio ser a sua fotógrafa.

 

Diferentes culturas têm diferentes formas de se relacionar com os animais. Como reage quando vê uma situação que possa ir contra os seus valores?

Estou consciente disso, mas devo dizer que, no que respeita a maus-tratos contra animais, nunca vi nada que não tenha também visto aqui, na Austrália. Sempre que vejo uma situação de injustiça ou de abuso, intervenho. Só porque estamos num país diferente não podemos ignorar uma situação de abuso e não fazer nada. Apoiando associações de outros países que resgatam animais também faz a diferença e permite-lhes ajudarem mais animais.

 

Tem algum animal de companhia?

Tenho dois cães resgatados: Pip, de seis anos de idade, uma mistura de galgo com kelpie australiano, e Pixel, de cinco anos de idade, um galgo. Adoptámo-los quando tinham cerca de 16 semanas de vida. Tenho também uma gata branca e preta, Macy, de sete anos de idade. Foi adoptada com 12 semanas de idade.

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