O sofrimento silencioso dos cavalos

Roberto Barata

Cavalos

Os seres humanos vivem e trabalham com cavalos há mais de 5.500 anos. Alguns historiadores afirmam que a civilização moderna não seria construída sem a ajuda dos seus cascos — para transportar arados, puxar carruagens, marchar soldados para a batalha e levar mensagens de amor e guerra através de centenas de quilómetros, de outra forma intransponíveis.

No entanto, a realidade desta espécie não é tão romântica quando olhamos para a sua presente situação.

O cavalo tem características naturais ignoradas na nossa sociedade humana. Vários estudos recentes mostram a proximidade entre o humano e o cavalo, assim como a interpretação, observação e adaptação deles em relação a nós. Quero salientar alguns tópicos sobre este assunto:

Sobre a adaptação social: Os resultados de um estudo efetuado em 2017 mostraram que os cavalos aprendem através da observação de outras espécies, neste caso, dos seres humanos.

Sobre a observação e interpretação: Uma investigação efetuada em 2016 revelou a primeira evidência das capacidades dos cavalos interpretarem expressões faciais humanas positivas (felizes) e negativas (raivosas) em fotografias. Os rostos irritados induziram respostas indicativas de uma compreensão funcional dos estímulos: os equinos exibiram um viés de olhar esquerdo (uma lateralização geralmente associada a estímulos percebidos como negativos) e um aumento da frequência cardíaca em relação a essas fotografias.

Os resultados de um outro estudo publicado em Maio deste ano foram mais além sobre este assunto e mostraram que os cavalos podem inclusive lembrar-se de expressões emocionais que eles viram nos rostos humanos

Sobre a dor: Os cavalos sentem dor. Aliás, muita dor, camuflada pelas suas características inatas, o que lhe confere uma maior contenção na demonstração da dor em comparação com os humanos. Mas nesta comparação existe um pormenor interessante. Um estudo efectuado pela veterinária patologista Lydia Tong demonstrou que a epiderme do cavalo (a camada mais alta da pele onde os nervos que sentem a dor se encontram) era na verdade mais fina do que a epiderme humana. Isso significa que o cavalo tem menos células da pele entre a fonte da dor (por exemplo, um chicote) e as suas terminações nervosas sensíveis.

Um outro estudo de Março deste ano mostrou como as embocaduras causam dor no cavalo e ao mesmo tempo originam comportamentos estereotipados.

Sobre o bem-estar: As nossas pesquisas internas na Dinamarca mostram que os problemas mais relatados em cavalos que atendemos são o medo, a entrada nos trailers e os comportamentos estereotipados consequentes do crescente hábito dos humanos os confinarem em boxes várias horas ou dias. Os restantes problemas são resultados de um fraco ou errado ensino baseado em comportamentos coercivos dos humanos, da subestimulação e da falta de habituação aos ambientes.

É de extrema importância a procura de um maior conhecimento actualizado sobre a natureza dos cavalos, uma maior compreensão da espécie e reflectir sobre os vários estudos científicos disponíveis.

 

Roberto Barata é formado em etologia aplicada e antrozoologia. É tutor no Ethology Institute Cambidge, faz serviço independente de assessoria científica, mentoring e coaching. Vive na Dinamarca, onde efectua pesquisas e estudos nas suas áreas de formação e coopera com o Etologisk Institute na realização de formações personalizadas a profissionais da área animal, a detentores de animais de companhia e na modificação comportamental de cães, gatos e cavalos, maioritariamente. Escreve no terceiro sábado de cada mês e pode ser contactado através do seguinte endereço electrónico: reb@ethology.eu

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