Reflexão

Porque nos preocupamos mais com a inteligência artificial do que com os animais?

Lançamento do livro “Ética Aplicada: Animais” na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa serviu de mote a um debate sobre os interesses dos animais humanos e não humanos
Fátima Mariano
Fernando Araújo (esq.) acredita que muitos animais dispensavam viver sem o amor dos humanos porque “o amor causa sofrimento” (Foto: Fátima Mariano)

Por que motivo a sociedade, em termos gerais, se preocupa mais com a inteligência artificial do que com os animais? Porque “os humanos nunca se preocupam com os seres que consideram ser intelectualmente inferiores”, responde Raul Farias, procurador da República, um dos autores do livro Ética Aplicada: Animais (Edições 70), apresentado esta sexta-feira na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

A obra, coordenada por Maria do Céu Patrão Neves e Fernando Araújo, foi o mote para um debate sobre “Ética animal: escolhos e reptos”, durante o qual a questão dos direitos dos animais esteve sempre presente.

Raul Farias diz-se “algo céptico” relativamente a esta questão por considerar que os animais “têm direitos e deveres de origem”. “O problema do ser humano não é o da atribuição de direitos aos animais, mas o da restrição”, refere, exemplificando: “O animal tem o direito natural à vida, que foi restringido pelos humanos. O animal tem o direito natural à liberdade de circulação, que foi restringido pelos humanos”.

O mesmo não se passa com a inteligência artificial. O procurador da República lembrou que a Arábia Saudita atribuiu a cidadania ao robô Sophia, em Outubro do ano passado. “Nós não discutimos a atribuição do direito ao voto aos animais, por exemplo. Mas se na Arábia Saudita existissem eleições democráticas, essa pessoa electrónica poderia ser eleita presidente”, sublinhou.

 

Um mundo de excessos e de desperdícios
Raul Farias considera que, “do ponto de vista jurídico, está muito por fazer”. Fernando Araújo, professor catedrático de Direito e um dos coordenadores do livro, admite que se deram “passos modestos” no que diz respeito aos interesses dos animais, mas considera que nos últimos 15 anos se fizeram “muitos progressos”. Defende, no entanto, que “o nosso respeito pelos animais não nos pode deixar em xeque na harmonia natural”.

O Homem está inserido numa cadeia alimentar, como os outros animais estão noutras cadeias alimentares. “A diferença é que nós podemos reduzir o sofrimento das nossas vítimas, anestesiando-as, por exemplo”, sublinha Fernando Araújo.

Marisa Quaresma dos Reis, provedora dos Animais de Lisboa e outra co-autora da obra, vegetariana convicta e assumida, aceita que existam pessoas que defendem a causa animal, mesmo comendo carne. “A causa vegetariana coloca-se particularmente no mundo do excesso e do desperdício, da produção excessiva de animais para consumo humano”, seja sob a forma de alimento, de vestuário e calçado ou de espectáculos, explica.

“Acho mais grave uma tourada do que o facto de uma pessoa comer carne. Há muitas pessoas que não são vegetarianas e que são muito válidas para a causa animal”, afirma.

Fernando Araújo considera que a causa animalista “sofre de um problema congénito que é o amor pelos animais”. “O amor causa sofrimento. Muitos animais dispensavam viver sem esse amor. A maior parte deles preferiria ser deixada em paz”, sublinha.

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