Mafra

Os burros são teimosos? Diogo diz que não: «São animais muito inteligentes e que nunca esquecem»

Em Portugal, existirão cerca de 10 mil animais desta espécie, a maioria com mais de 20 anos de idade. A Burricadas - O abrigo do jumento tem 150 burros em lista de espera
Fátima Mariano
Burro
Burro
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Burro

(Fotos: José Sérgio)

São 10 horas e as primeiras voluntárias começam a chegar à Burricadas – Abrigo do Jumento, localizado em Igreja Nova, no concelho de Mafra. Ao longo de todo o dia, cerca de uma dezena de pessoas estará atarefada com o corte da erva, a distribuição de feno aos burros, o arranjo das cercas, a colocação de postes, entre outras tarefas necessárias para manter o abrigo em boas condições.

O Burricadas foi fundado por Diogo Pimenta em Março de 2007 para proteger preservar e divulgar o burro (Equus africanus asinus) em Portugal. A escolha do mês não foi fruto do acaso. Março é considerado o mês do burro porque era nesta altura do ano que eles eram tosquiados e que as fêmeas entram no estro (cio).

Segundo Diogo Pimenta, existirão cerca de 10 mil burros em Portugal, a maioria com mais de 20 anos de idade. É uma espécie em vias de desaparecimento, uma vez que a sua função principal – a de auxílio nos trabalhos agrícolas – é cada vez mais realizada por máquinas. Alguns estão a ser utilizados em projectos turísticos, «que têm pouca rentabilidade»; outros, na indústria de produção de leite de burra e produtos derivados.

A ideia de criar este projecto surgiu quando Diogo Pimenta era voluntário no Grupo Lobo e tomou conhecimento da existência da AEPGA – Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, muito virada para a protecção do burro mirandês. Diogo queria algo que abrangesse todas as espécies de burros, em especial, os mais idosos e assim nasceu o Burricadas.

 

150 burros em lista de espera

O abrigo tem capacidade para acolher 12 burros, mas no dia da nossa reportagem, tinha apenas nove. Neste momento, estão cerca de 150 animais em lista de espera. A maioria pertence a pessoas idosas, que já não têm condições para os manter. Diogo Pimenta gostaria de poder acolher mais, mas também os seus recursos são limitados. Teria que aumentar o espaço do estábulo e arranjar um armazém para acondicionar maiores quantidades de feno e rações.

Manter um animal em perfeitas condições custa à volta de 600 euros por ano. «Os nossos burros têm os cascos devidamente tratados, comem feno, frutas e legumes de boa qualidade e têm cuidados médico-veterinários», explica.

As receitas do projecto provêm das visitas organizadas ao espaço (normalmente, aos domingos de manhã ou em dias especiais) e dos apadrinhamentos (até ao momento, maioritariamente feitos por cidadãos estrangeiros). «Infelizmente, a crise fez com que muitas pessoas deixassem de nos apoiar», lamenta o responsável pelo Burricadas.

 

Voluntários, precisam-se

Regularmente, são promovidas acções de voluntariado, como aquela que Os Bichos acompanhou e na qual participou Flávia Leno, 25 anos de idade, residente em Ponte de Lousa, Loures, e voluntária da Casa dos Animais, em Lisboa.

«Os meus avós eram agricultores e tiveram um burro. Sempre tive contacto com animais e é importante nunca perdermos esta ligação à natureza», contou ao nosso jornal. Flávia Leno decidiu participar nesta acção de voluntariado por considerar importante «valorizar estes animais, ainda por cima, porque já são velhinhos».

Voluntária mais assídua e mais antiga é Ana Gago. É um dos braços direitos de Diogo Pimenta e conhece a história e a personalidade de cada um dos animais que tal vive. «Tal como nós, eles também têm a sua personalidade. Uns são mais tímidos; outros mais desinibidos», diz, enquanto olha os burros, que alheios à azáfama que os rodeia, se entretêm a comer erva fresca.

Ao contrário do que o povo diz, Diogo Pimenta não considera que os burros sejam animais teimosos. «Eles são muito inteligentes e nunca esquecem. Se alguém lhes fizer alguma coisa, vão lembrar-se para sempre», garante.

 

Veja aqui o vídeo da reportagem.

 

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