Debate

Crianças e touradas: sim ou não?

A organização de uma garraiada infantil em Arronches (entretanto cancelada) levantou novamente a questão. Presidente da Câmara pede que se perceba «o contexto e a tradição»
Fátima Mariano
tourada
Garraiada infantil foi cancelada depois de uma reunião entre o promotor, a GNR e a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (Foto: Pixabay)

O anúncio da organização de uma garraiada infantil (entretanto cancelada) pelo Grupo de Forcados Amadores de Arronches prevista para este sábado, para celebrar o Dia Mundial da Criança, trouxe ao debate público novamente a questão da presença de crianças em espectáculos tauromáquicos.

O evento, que iria decorrer na praça de touros local, previa a demonstração de pegas pelo Grupo de Forcados Juvenis de Arronches, toureio apeado, prémios para a melhor pega de caras e «valiosos prémios para os mais corajosos» que participassem no jogo do círculo. As crianças até aos 12 anos de idade não pagavam a entrada.

A garraiada foi cancelada após a GNR e a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens terem invocado, junto da entidade promotora, que a legislação proíbe o acesso a espectáculos tauromáquicos a menores de 12 anos (artigo 27.º do Decreto-Lei n.º 23/2014, de 14 de Fevereiro). O jornal Os Bichos tentou ouvir o Grupo de Forcados Amadores de Arronches e a Associação Cultural de Arronches «Amigos da Festa Brava», mas sem sucesso.

De acordo com o cartaz que anunciava a garraiada infantil, o espectáculo contava com o apoio da Câmara Municipal de Arroches. Ao jornal Os Bichos, a presidente da autarquia, Fermelinda Pombo Carvalho, diz que a inserção da imagem do brasão de Arronches se deveu ao facto de a câmara «apoiar sempre espectáculos culturais». Contudo, esclarece, não era o caso deste evento.

«Obviamente, sou contra a participação de crianças nestes espectáculos, mas esse é um trabalho dos pais. Os meus filhos não participariam na garraiada, mas assistem a espectáculos tauromáquicos», referiu. «Para nós, que somos criados neste meio, é tudo muito normal. Nestas garraiadas, solta-se um bezerrito, mas as crianças nunca são colocadas em risco».

A autarca admite que gosta de corridas de touros e que as considera «necessárias». Mas aceita que «outras pessoas não gostem». Pede apenas que se perceba «o contexto e a tradição». «A Câmara é muito sensível em relação às questões dos direitos dos animais. Nós gostamos de animais, temos é uma maneira diferente de olhar as coisas», explica.

 

Que impacto psicológico?
Em 2016, a Ordem dos Psicólogos Portugueses emitiu um parecer, a pedido do partido PAN – Pessoas Animais Natureza, sobre as consequências da exposição e participação das crianças em eventos e actividades tauromáquicas. No documento, que pode ser lido aqui, é elencado um conjunto de estudos realizados com crianças que concluíram que aquelas que «testemunham abuso animal têm maior probabilidade de desenvolver problemas comportamentais, dificuldades académicas, comportamento delinquente e correm maior risco de abusar de substâncias».

Ao jornal Os Bichos, o psicólogo clínico e forense Mauro Paulino refere que há vários factores que influenciam a forma como a criança interpreta os espectáculos tauromáquicos, entre os quais a idade, o sexo e a personalidade (se é impulsiva, se se identifica mais com animais e pessoas, etc.). Contudo, «essa exposição acarreta sempre um impacto psicológico».

«Quando as crianças assistem a uma tourada, podem interpretá-la como sendo um caso de violência. A ideia que é passada à criança é a da desigualdade, a de que o Homem é superior ao animal e que o pode coagir a seu belo prazer. É a ideia de que podemos retirar prazer do sofrimento do outro, neste caso, do animal», sublinha.

De acordo com o mesmo profissional, «quando não há empatia para com o sofrimento do animal, o que acontece normalmente é um abuso reactivo. Ou seja, a criança pode ela própria maltratar um animal». Mauro Paulino conclui: «Quem agride facilmente um animal, mais facilmente agride uma pessoa».

No dia 6 de Julho, serão discutidos no plenário da Assembleia da República uma proposta de lei do PAN – Pessoas Animais Natureza e dois do Bloco de Esquerda sobre a realização de touradas.

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