Touradas para crianças?

Vítor Rodrigues
Tourada

Neste pequeno artigo deixamos de lado maiores considerações acerca das touradas e da sua legitimidade, não sem referirmos o absurdo do argumento que as considera uma tradição que, sendo tradição, deve ser conservada por ser tradição. Pelo contrário, o progresso civilizacional – que é também ético – implica ir além das tradições que, por serem primitivas, bestiais, anti-éticas, devem ser abandonadas. Caso contrário, usaríamos o argumento da «tradição»  para preconizar o retorno aos sacrifícios humanos, bacanais, combates de gladiadores, duelos de morte e assim por diante.

Interessa-nos considerar o peso educacional da exposição de crianças e adolescentes às touradas. Existem numerosas razões para elas devam ser poupadas a tais espectáculos. Em 2000, um grupo de associações de grande peso nos EUA, congregando pediatras, psicólogos, psiquiatras, médicos, resumiu mais de 30 anos de investigação e mais de 1000 estudos afirmando que a violência nos media aumenta a violência nas crianças, convence-as de que esta é um bom meio para obter benefícios, torna-as mais insensíveis, aumenta a percepção de que o mundo é um lugar maldoso, aumenta a tendência para actos violentos reais. Este estudo foi confirmado por muitos outros mais recentes.

Inclusive, ver na TV ou ao vivo modelos considerados bonitos, atraentes, prestigiados, ricos – como os toureiros – a serem recompensados pela violência e pelo sangue derramado em público «envia» às crianças a mensagem de que ser violento é bom e adequado. Aos adolescentes em fase de construção de identidade envia a ideia de que a violência é socialmente compensadora.

Estudos sobre a exposição a violência real e ao vivo (em cenários de guerra) mostram que os «espectadores» deles tendem a aumentar a violência real depois… Tudo isso não deve espantar-nos pois uma parte da aprendizagem que fazemos na vida acontece por observação. Ora a violência nas touradas oferece uma narrativa de violência, um «guião», que necessariamente pode influenciar negativamente as crianças. Mesmo a neurologia demonstra que observar violência contribui para reduzir a actividade das áreas cerebrais que a inibem.

A violência é contagiosa. Sabe-se isso através de um imenso número de investigações sociais e psicológicas. Ora a violência das touradas é um caso especial de agressividade sanguinária, perigo, onde os «heróis» são justamente os que atacam, derramam sangue ao vivo, e são recompensados por isso. Também se sabe do modo como hoje em dia o carácter «festivo» ou «divertido» da violência (e chamam «festa brava» às touradas!) pode levar adolescentes a violentar vítimas e a filmar essa violência que depois é partilhada em redes sociais (os exemplos são infelizmente numerosos).

Como salientou Duquesne, o “«castigo» com bandarilhas mostra à criança que algumas agressões arbitrárias e desumanas contra inocentes podem «justificar-se”»se forem divertidas, espectaculares ou colocarem em evidência a ousadia e coragem dos perpetradores de violência. Neste sentido, as touradas ensinam o contrário da compaixão e até da simples decência humana… Não admira que termos como «matador» surjam glorificados.

Queremos treinar crianças para a psicopatia ou preferimos afastá-las das touradas?

 

Vítor Rodrigues é doutorado em Psicologia pela Universidade de Lisboa e psicoterapeuta de adolescentes e adultos desde 1985. Pode ser contactado através do seguinte endereço electrónico: psicosophos6@gmail.com

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