Ameaça

Cágados portugueses em risco devido à introdução de espécies exóticas no seu habitat natural

População do cágado-de-carapaça-estriada e do cágado mediterrânico tem vindo a diminuir. Hoje, assinala-se o Dia Mundial da Tartaruga, um dos répteis mais antigos do mundo
Fátima Mariano
Cágado-de-carapaça-estriada

 

Libertação de tartarugas exóticas na natureza é considerado um crime ambiental e coloca em risco as espécies autóctones (Foto: Vassil)

Em Portugal, existem duas espécies autóctones de tartarugas anfíbias, que estão ameaçadas sobretudo por causa da pressão humana. O cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) e o cágado mediterrânico (Mauremys leprosa) existem um pouco por todo o território, junto a lagos, rios e ribeiros, mas a sua população tem vindo a diminuir. Uma das principais razões é a pressão humana, o facto de os locais onde vivem ser cada vez mais utilizados pelas pessoas. Mas há outras, como os ataques de cães e gatos e a introdução de espécies exóticas no seu habitat natural.

«Os portugueses compram centenas de milhares de tartarugas por ano, maioritariamente norte-americanas. Só no ano passado, foram importadas 400 mil», diz Élio Vicente, biólogo marinho e director de Relações Externas do Zoomarine, em Lagos.
O problema é quando deixam de ter interesse em manter o animal em casa. Muitas vezes, acabam por libertá-lo na natureza. «As pessoas até o fazem a pensar que é o melhor para a tartaruga, mas além de se tratar de um crime ambiental, coloca aquele animal e outros em risco», sublinha Élio Vicente.

Tratando-se de um animal doméstico, «pode não ter tempo para hibernar ou procurar alimento» ou pode tornar-se uma espécie invasora e predadora das espécies autóctones, como o cágado mediterrânico e o cágado-de-carapaça-estriada.

Élio Vicente aconselha a que não se compre cágados, mas se o fizer, deve perguntar a vendedor qual a legislação que se aplica ao animal e qual a documentação necessária, como a declaração CITES (Convenção sobre o Comércio de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas). No caso de se ter um em casa, nunca deve ser libertado em rios, ribeiros ou lagos e muito menos em oceanos, pois morreriam. «Esses animais têm que ser encaminhados para zoos ou santuários animais», explica.

 

A tartaruga-de-pente é uma das espécies que aparece na costa portuguesa durante as suas viagens migratórias (Foto: B. Navez)
As ilhas de plástico

Mas há outras espécies de tartarugas ameaçadas um pouco por todo o mundo. No caso das tartarugas-marinhas (Cheloniidae), Élio Vicente refere que elas não têm por hábito virem às praias portuguesas, mas há várias que circulam ao longo da costa, como a tartaruga-verde (Chelonia mydas), a tartaruga comum (Caretta caretta) ou a tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata). Muitas são feridas pelas artes de pesca ou atropeladas por embarcações que navegam a alta velocidade.

«Elas vêm regularmente à superfície para respirarem e apanharem sol. Muitas vezes, são gravemente feridas. Podem fracturar a carapaça ou sofrer traumatismo craniano ou nos pulmões e ficarem dias em agonia até acabarem por morrer», alerta o biólogo marinho.

A poluição dos oceanos é outro grande inimigo das tartarugas marinhas. «Há literalmente ilhas de plástico a navegarem nos oceanos. Muitas vezes, as tartarugas acabam por confundir os plásticos com medusas e ingerem-nos, acabando por morrer», alerta Telma Araújo, Curador dos Répteis do Jardim Zoológico de Lisboa., entidade que até sexta-feira promove um conjunto de actividades que visam sensibilizar os visitantes para a necessidade de defender aquele que é um dos répteis mais antigos do mundo.

Durante estes dias, além de estar em curso uma campanha de apadrinhamento, os visitantes podem ouvir o tratador das tartarugas falar sobre estes animais e verem «alguns materiais zoológicos, como ovos não fecundados, carapaças de vários tamanhos e escamas», revela Telma Araújo.

No Zoo de Lisboa vivem 15 espécies de tartarugas, sete das quais estão em perigo de extinção. Como é o caso da tartaruga-do-egipto (Testudo kleinmanni), a espécie mais pequena do mundo, que vive em regiões desérticas ou onde ocorrem conflitos armados e que é também muito traficada comercialmente.

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