Entrevista

«A interacção entre um cão e uma criança carece de uma supervisão permanente»

Autor do livro DesCãoplicar. Crie a relação perfeita com o seu animal de companhia, Pedro Emanuel Paiva considera que os Portugueses têm pouco conhecimento sobre o comportamento e a linguagem caninas
Fátima Mariano
cão

 

Pedro Emanuel Paiva e Tico, um cão de pastor alemão, trabalharam juntos durante 10 anos na GNR (Foto: Direitos reservados)

Especialista em comportamento canino há 17 anos, Pedro Emanuel Paiva já trabalhou com cães de defesa policial, de busca e salvamento e de actividades assistidas em escolas públicas de ensino especial. Nesta entrevista a Os Bichos, alerta para a importância de começar o treino o mais cedo possível e critica quem deixa um cão e uma criança interagirem sem a supervisão de um adulto.

 

Os Portugueses são muito «cãoplicados»? Quais as principais dúvidas que os tutores dos cães lhe colocam?
Em 80% dos casos, os tutores procuram-nos quando já há problemas instalados e há comportamentos indesejáveis, pelo que o trabalho a desenvolver é de o de reabilitação do cão. Os restantes 20%, são tutores que apostam no treino precoce e, aí, o nosso trabalho é de educação. O mais comum é pedirem-nos que os ensinemos a controlar o cão dentro de casa. Há casos em que nos dizem que o cão parece bipolar porque se comporta de maneira diferente em casa e na rua.

 

Com que idade deve começar o treino de um cão?
Um cachorro nunca deve ser retirado da mãe antes dos dois meses de idade, porque esse período é importante para ele aprender a ser o que é: um cão. A idade ideal é começar o treino por volta dos três meses de idade. Mas é importante os futuros tutores prepararem a casa e a família antes da chegada do animal, porque a vida de todos vai mudar.

 

O tipo de treino varia de raça para raça, se é um macho ou uma fêmea, se o cão é mais velho ou mais novo…
A base do treino não muda muito. Há três condicionantes a ter em conta: a carga genética do animal, a raça (há estudos que comprovam que há raças mais inteligentes do que outras) e as experiências anteriores que o animal possa ter tido. Por exemplo, se foi retirado prematuramente da ninhada, se sofre da síndrome do canil, etc. Em relação aos machos e fêmeas, é preciso ter presente que os cães têm necessidade de marcar o território que não acontece com as cadelas. Mas o treino a aplicar vai variar sempre de cão para cão.

 

Quando toma conhecimento de um caso em que um cão mordeu uma pessoa, qual é a primeira ideia que lhe vem à cabeça?
Que o tutor do cão é uma pessoa completamente irresponsável. Principalmente, quando o ataque é a uma criança. A interacção entre um cão e uma criança carece de uma supervisão permanente. Além disso, um cão nunca morde sem antes dar o alerta de que vai morder. Ele começa a dar esse sinal pela forma como posiciona a cauda. O problema é que as pessoas não estão preparadas para lerem esses sinais.

 

O elevado abandono de cães em Portugal poderá também estar relacionado com esse desconhecimento de que fala?
Sim. Não se pensa se estamos preparados para ter um cão. Na maioria das vezes, trata-se de uma compra ou de uma adopção por impulso. Há uma total falta de conhecimento do que implica ter um animal em casa. No entanto, com as mudanças nas leis, as pessoas já pensam duas vezes antes de abandonarem um animal.

 

Dedica o livro DesCãoplicar ao Tico, um cão de pastor alemão que trabalhou consigo durante 10 anos na GNR. O que tinha o Tico de tão especial?
Era um cão de reposição de ordem pública, mas acabou ser empregue em outras valências, o que não é muito comum. Ele conseguiu colmatar a minha falta de experiência em trabalhar com cães, no início, e isso marcou-me muito.

 

Leia aqui a crítica ao livro.

1 Comentário
  1. Manuel Jorge 2 meses atrás
    Responder

    Não sou treinador de cães mas relaciono-me com treinadores e vou acompanhando a evolução do conhecimento em matéria de comportamento animal. Concordo com o que diz o Pedro na generalidade mas permito-me fazer algumas ressalvas. De facto há cadelas que marcam, logo o marcar não é exclusivo dos machos. O treino do cachorro pode começar antes dos dois meses e até é vantajoso que seja feito, falamos essencialmente de estimulação , de apresentar uma variedade de estímulos que tornem o cachorro mais confiante, mais seguro, não deixa de ser treino. Depois sim na verdade é entre os dois e os quatro meses o período em que devemos apostar numa boa sociabilização. Há uma tendência por parte dos veterinários desaconselharem a juntarmos os cachorros com outros animais antes de terem completado o programa de vacinação o que compromete grandemente a sociabilização do animal pois este programa de vacinação coincide com o período de sociabilização. Os sinais que antecedem uma mordida não se resumem à posição da cauda, existem vários sinais de desconforto e de aviso, que antecedem mesmo o rosnar, olhar, boca, postura/tensão corporal, etc. Há cães que por terem sido reprimidos alguns sinais de aviso como o rosnar saltam este que é o mais óbvio sinal de aviso e partem diretamente para o ataque. De resto concordo com o que é dito . Vou ler o livro do Pedro.

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