Sustentabilidade

Dia Internacional da Biodiversidade: Quo vadis, planeta Terra?

Existem 91.523 espécies animais ameaçadas em todo o mundo, 63 das quais em Portugal. Destruição de habitats e introdução de espécies exóticas nos ecossistemas entre as principais ameaçadas
Fátima Mariano

 

O lince-ibérico é o felino mais ameaçado do mundo. Portugal e Espanha têm programa de reintrodução da espécie na natureza (Foto: Linex situ)

Nunca o planeta Terra sofreu uma crise de biodiversidade tão rápida e causada pela acção humana como aquela a que assistimos desde o início do século XX. A taxa de extinção de espécies – da fauna e da flora – atingiu proporções de tal forma preocupantes que em 1992 a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou o 22 de Maio como o Dia Internacional da Biodiversidade.

Esta extinção deve-se não só pela acção directa sobre as espécies (caça, pesca, etc.), mas também à destruição e alteração dos habitats naturais (desflorestação, incêndios, mudança de sistemas agrícolas, etc.). «O problema desta extinção provocada pelo homem é que ela é tão abrangente, rápida e profunda que as espécies não têm tempo para se adaptarem ou migrarem», explica a Os Bichos o biólogo Eduardo Santos, da Liga para a Protecção da Natureza (LPN). «Quem ganha com isto são as espécies oportunistas, que são uma minoria e que proliferam de uma forma não natural».

Na Lista Negra de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, sigla em inglês) constam 91.523 espécies das quais cerca de um quarto (25.821) são consideradas ameaçadas.

 

E em Portugal?

Portugal não é excepção neste quadro negro. Na referida Lista Negra de Espécies Ameaçadas da IUCN constavam, em 2017, 63 espécies animais, das quais 37 consideradas criticamente em perigo, 19 em situação vulnerável e 7 ameaçadas.

A mudança no agro-sistema tem um impacto tremendo em várias espécies. O sisão (Tetrax tetrax), outrora uma ave comum, está neste momento em perigo porque a agricultura extensiva foi substituída pela intensiva. O coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), outra espécie antes muito abundante, também está em risco, devido a práticas agrícolas alteradas e à febre hemorrágica. João Branco, presidente da Quercus, defende a proibição da caça desta espécie durante pelo menos três anos para que a população consiga recuperar. «Grande parte dos indivíduos morre vítima da doença e os que sobrevivem são caçados», sublinha, alertando também para o que se passa com os javalis: «As populações do centro do país estão com tuberculose e a doença está a propagar-se».

Os incêndios florestais do ano passado, que atingiram diversas áreas protegidas, poderão ter também causado danos consideráveis em algumas populações animais, embora dificilmente se conseguirá medir o verdadeiro impacto. Muitos bichos morreram durante os incêndios ou na sequência de ferimentos que sofreram por acção directa do fogo ou na fuga. Os que conseguiram escapar migraram para áreas vizinhas à procura de alimento e de condições para se reproduzirem.

O único casal de abutre-preto que vive no Douro Internacional não se reproduziu o ano passado por causa dos incêndios (Foto: P. Jeganathan)

Eduardo Santos recorda que o único casal de abutre-preto (Aegypius monachus) que vive no Douro Internacional perdeu, o ano passado, a sua cria porque a árvore onde tinham construído o ninho ardeu por completo. Trata-se de uma espécie que só coloca um ovo por ano e, em todo o território nacional, só existem 15 casais. Este ano, o casal construiu o ninho numa área próxima e, ao que tudo indica, conseguirá reproduzir-se.

O biólogo da LPN sublinha, no entanto, que os incêndios florestais são importantes para manter o equilíbrio do ecossistema mediterrânico. «O problema é a sua frequência e sua intensidade», acrescenta.

 

Que salvação?

Perante este quadro, o que fazer para diminuir o risco de ameaça sobre as espécies animais? Uma das primeiras medidas será a de não destruir ou alterar profundamente os habitats naturais. João Branco lembra que vários linces-ibéricos (Lynx pardinus), o felino mais ameaçado do mundo e alvo de um programa de reintrodução da espécie em Portugal, morreram atropelados.

«É urgente eliminarem-se os pontos negros que existem nas vias rodoviárias, construindo-se, por exemplo, passagens aéreas ou subterrâneas para a fauna, como já se faz em vários países. Em Portugal, existem muito poucas», lamenta.

A questão da livre circulação dos animais pelo território coloca-se também quando se prevê a construção de barragens. Para o Alto Tâmega estão previstas três que «vão impedir a circulação» do lobo-ibérico (Canis lupus signatus), outra espécie em perigo, havendo o risco de as populações locais «desaparecerem», alerta João Branco.

Eduardo Santos destaca uma outra forma de reduzir a pressão sobre os animais: acabar com a introdução de espécies exóticas no território nacional (tartarugas, lagostim de água doce, percas achigãs, etc.). «As espécies exóticas são predadores vorazes e que se adaptam facilmente ao novo habitat. Além disso, há muitos dos nossos rios não são sistemas de água corrente mas represados. Quase todos os nossos peixes de água doce estão ameaçados de extinção», avisa o biólogo.

Dois dos exemplos mais preocupantes são o saramugo (Anaecypris hispanica) e a boga do oeste (Achondrostoma occidentale), também conhecida por ruivaco do oeste, que só existem no sul do país.

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