O modelo obsoleto do treino canino

Roberto Barata
cão

Treino

O treino canino teve as suas origens essencialmente na área militar, fruto das características inatas da espécie que fizeram (e fazem) do cão uma ferramenta de trabalho útil. O treino foi posteriormente alargado em tempos de paz para as áreas desportivas, e entretenimento humano e uso social.

Ao longo de mais de 50 anos, são poucas as mudanças per se no treino canino. O intitulado «treino social» herdado da componente militar e desportiva trouxe a exactidão de um treino padronizado com metodologias onde todos os cães devem responder da mesma maneira, na sua maioria com modelos aplicados de «lupomorfismo» (Lupo=Lobo + morfismo=atribuir a forma de) e materiais de treino coercivos, resultado este da falta de profissionalização e de bases científicas actualizadas, onde qualquer indivíduo pode intitular-se especialista.

Embora várias formas de ensino de cães baseado no respeito terem sido implementadas, a sociedade continua a ser vítima de uma ignorância comercialmente necessária e do fashionism, o que se traduz num afastamento inconsciente entre os humanos e a espécie canina, e a preocupação de uma relação natural e de compreensão mútua é substituída pela compra de ferramentas artificiais (na maioria das vezes) desnecessárias e pelo uso de palavras socialmente aceites.

As nossas estatísticas internas actuais (Dinamarca) sobre alguns temas da relação detentor-cão mostram que:

• Os cães passam uma média de 21 horas fechados em casa, estando cerca de 7 horas sozinhos;
• A quase totalidade dos assuntos referentes a problemas indesejados dos cães e dúvidas de ensino por parte dos detentores são relativos ao que se passa no interior da casa;
• Os problemas dentro de casa mais relatados são (1) o pular nas visitas, (2) problemas relacionados com o ficar sozinho, (3) a subestimulação e (4) o mordiscar as mãos;
• Os problemas fora de casa mais relatados são (1) a falta de ligação entre o detentor-cão, (2) o puxar na trela, (3)o pular nas pessoas e (4) ladrar a outros cães.

Devemos, enquanto profissionais que trabalham a tempo inteiro nesta área, reflectir sobre os modelos existentes e a necessidade de mudá-los ou mesmo extingui-los por tão obsoletos que demonstram ser, mesmo que tenhamos de quebrar barreiras culturais, e ter a resiliência de adaptar os modelos de negócios à realidade actual.

Por exemplo, se os cães passam uma média de 21 horas fechados em casa e a maioria dos problemas relatados são em casa, treinos exclusivamente externos num único espaço, com checklists padronizados, regimes de internamento ou treino feito pelo treinador não reflectem a necessidade do cão nem das famílias, sendo um gasto de tempo, energia e dinheiro.

O novo modelo de ensino canino deve basear-se na ciência, nos estudos actuais e as estatísticas devem seguir um modelo de melhoria contínua para o profissional, apostando na educação familiar e cívica através da transmissão real do conhecimento, na adaptação do ensino às necessidades individuais de cada cão e na criação de um vínculo natural entre as duas espécies.

 

Roberto Barata é formado em etologia aplicada e antrozoologia. É tutor no Ethology Institute Cambidge, faz serviço independente de assessoria científica, mentoring e coaching. Vive na Dinamarca, onde efectua pesquisas e estudos nas suas áreas de formação e coopera com o Etologisk Institute na realização de formações personalizadas a profissionais da área animal, a detentores de animais de companhia e na modificação comportamental de cães, gatos e cavalos, maioritariamente. Escreve no terceiro sábado de cada mês e pode ser contactado através do seguinte endereço electrónico: reb@ethology.eu

2 Comentários
  1. Manuel Jorge 5 meses atrás
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    Excelente artigo do Roberto Barata! Curioso, se substituíssemos “cães” por “cavalos” o texto continuaria a fazer todo o sentido 🙂 . É incrível é como algumas novas organizações em Portugal que têm a preocupação de promover uma relação salutar entre homens e animais e tão preocupadas em respeitar fundamentos científicos norteadores dessa relação convidam profissionais cujo trabalho tem uma base essencialmente empírica em muitos aspetos contrariada e rejeitada pelo conhecimento científico. Refiro-me a casos como o Centro para o Conhecimento Animal, CCA, que organiza cursos de TT , Tellington Touch, e de Natural Horsemanship, ou a TheKidsFellows-ResearchGroup in Anthrozoology que convida profissionais como Alfonso Aguilar , um NHS com conhecimento e práticas já também ultrapassadas, quase como convidar um Cesar Milan para um workshop de treino canino. Fico com a sensação de que ou estão mal assessorados , ou o mais importante é acima de tudo ganhar visibilidade e irem atrás de modas. É triste vendo que nessas organizações temos pessoas de grande plano no panorama do treino e bem estar animal. Bem que a TheKidsFellows podia ter convidado o Roberto Barata em vez do Alfonso Aguilar. Que raio, em até parece que tentam justificar o obsoletismo de algumas práticas equestres como o abuso do reforço negativo no treino dos cavalos. Revolta-me quando vejo este tipo de coisas vindas de quem pretende estar na linha da frente do conhecimento etológico, do treino e do bem estar animal.

  2. Catarina Assunção 2 meses atrás
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    Excelente artigo Roberto, mais uma vez!

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